10 dias em Champagne: a vida real por trás do glamour

Por Michelle Landgraf · 15 de setembro de 2026

10 dias em Champagne: a vida real por trás do glamour

O que uma vindima me ensinou sobre vinho, terra e vida

Quando comecei a pensar sobre o texto que escreveria e o que ele deveria abordar, imaginei falar sobre as belíssimas paisagens da região de Champagne, na França. Campos intermináveis de videiras que carregam em si tanta história, mistério, magia, cultura, tradição e (por que não?) contradições. Assim, foi com imensa euforia que recebi o convite para participar da vindima na região. Bem…sejamos honestos, eu me autoconvidei para estar lá com minha amiga, que já tinha acertado tudo. A princípio, iríamos três. Porém, por conta da legislação trabalhista na França (já falo sobre isso), uma acabou não nos acompanhando.

Iniciemos por essa questão legal. As leis da França referentes à vitivinicultura são extremamente rígidas, e eu já sabia disso. Também é um país bastante conhecido pela luta de classes e os movimentos em favor dos trabalhadores. Afinal, apesar de o movimento iluminista ter nascido na Inglaterra, foi a França que lhe deu luz e força com seu lema da Revolução, repetido com frequência ainda nos dias de hoje: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Nós seríamos efetivamente contratadas por período determinado, inclusive minha amiga esteve lá sob esta condição. Porém descobrimos que eu não podia ser contratada, já que não sou europeia e minha autorização de residência e trabalho se aplicam apenas para Portugal, onde moro. Ocorre que estar em Champagne, ver o lugar, o processo e conhecer as pessoas era uma das coisas que figuravam no topo da minha lista “10 coisas para fazer antes de morrer”.

Quando eu soube que não poderia ir como contratada, imediatamente me ofereci como voluntária. Eu só queria participar, assim como já o fiz incontáveis vezes tanto no Brasil quanto em Portugal. Bem, na França não há trabalho voluntário nas vindimas (sou totalmente honesta em dizer que não faço ideia de como funciona em outros setores). Isso acontece provavelmente pela quantidade de trabalhadores que vivem em condições análogas à escravidão nesse tipo de trabalho, temos inclusive exemplos bastante recentes nas vindimas da Serra Gaúcha, no Brasil.

Acontece que não estamos falando de qualquer Maison…estamos falando da família Bonnet, que logo vocês verão por que eu dedicarei o texto praticamente todo a eles. O proprietário atual, Cyrill Bonnet, me convidou para acompanhar minha amiga mesmo sem a contrapartida do trabalho, apenas porque se solidarizou com o fato de ela ir de carro sozinha e também com a minha enorme vontade de estar lá. A única condição: eu não poderia trabalhar, apenas observar, assistir, fazer todas as perguntas que pudesse e apenas dar alguma ajuda na cozinha.

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Todos os funcionários recebiam café da manhã, lanche e almoço, e alguns (os que não eram locais), também o jantar. A equipe contava com aproximadamente 40 pessoas. Afinal, nos últimos dias de vindima eu consegui colher algumas uvas, Cyril me deixou fazer UMA fileira e já me mandou largar a tesoura. Ainda assim, já posso dizer que me sinto vitoriosa por ter participado de uma vindima em Champagne.

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Mas... e o champanhe? Sim, bebemos champagne todos os dias, em todas as refeições! Mas sem excessos, o trabalho é bastante pesado e muito, muito sério tanto no campo quanto na adega. A casa Bonnet-Ponson foi fundada em 1862, na região denominada Montagne de Reims em Chamery e está sob o comando da sexta geração. Isso mesmo, segue na família há quase 200 anos…

Cada nova geração adiciona sua própria visão de mundo, sua própria visão de champagne. Ainda podemos ver na cave alguns exemplares de champagne produzido talvez por umas quatro (ou mais) gerações anteriores. E, inclusive, a sétima geração já está crescendo entre as barricas, correndo pela cave e garantindo que teremos Bonnet-Ponson por algumas boas décadas ainda.

Eu fui recebida no seio da família como se dali fizesse parte e passei muito tempo com eles…com Ariel (esposa de Cyril), com seus pais que estavam lá para ajudar durante esse período intenso de vindima e também com os gêmeos Lucien e Dimitri, dois meninos que, além de lindos, são inteligentíssimos e muito interessados pelo que acontece na adega. Bem, talvez mais pelo suquinho que sempre conseguem filar quando a uva é espremida.

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Sobretudo têm um enorme apreço pela cave, correm por aquele labirinto como se fosse um campo aberto, me deram uma aula de solo, falando sobre o porquê de ser como é e inclusive encontraram e me presentearam com um fóssil de concha, que eu trouxe comigo e vou guardar pra sempre. Já tenho saudade dos pestinhas (ensinei a Ariel a palavra e eles acharam muito divertido). Andamos juntos pela cave, pelo entorno da adega, pelo vilarejo vizinho e até preparamos uma sobremesa portuguesa a seis mãos!

A Bonnet-Ponson tem seus vinhedos todos orgânicos, e a prática não é só onda surfada…todas as refeições servidas foram preparadas com ingredientes retirados da própria horta e do mercado local orgânico, inclusive carnes e derivados. Conversei muito com Cyril sobre sua visão para a empresa, pois ele está no comando há sete anos, tem 42, os meninos acabaram de completar 7. Ou seja, ele tem pela frente algumas boas décadas ainda. A sétima geração é composta pelos gêmeos, filhos de Cyril, e pela filha de sua irmã, que hoje comanda o restauro do hotel e restaurante que deve ser inaugurado em meados de 2027.

Eles vivem a vida pessoal enquadrada com aquilo que acreditam sobre a terra, o aquecimento global, as crises sociais e políticas etc. A ideia dele não é crescer mais, inclusive pretende vender uma parte da propriedade, que hoje tem 10,5 hectares e, pasmem, a parcela que pretende se desfazer, de 1,5 hectare, é justamente uma parcela posicionada em Grand Cru. Isso é absolutamente impensável em qualquer outra casa…como alguém se desfaz de algo tão valioso? Por quê? Porque essa parcela fica longe da vinícola, o custo ecológico de manter, tratar, vindimar etc. não se encaixa nos valores que ele não só defende como vive em sua vida pessoal.

Cyril me diz que nunca vai parar de fazer vinho, até porque além de todo o legado familiar, é esse ofício que dá combustível para outros projetos. Ele pretende que a propriedade seja autossuficiente do ponto de vista alimentar dentro de aproximadamente cinco anos. Para isso, tem feito inúmeros testes com sementeiras, estufas etc. Quando fui me despedir, ainda consegui uma última conversa mais profunda. E foi quando ouvi talvez a frase mais marcante que qualquer vinhateiro já me tenha dito: “O ser humano não precisa de vinho para sobreviver, isso é um capricho, é supérfluo”. Disse que Ariel o chama às vezes de pessimista, mas ele pensa que talvez seja apenas realista um pouco além da conta.

Saí de lá com uma bagagem enorme (literalmente, porque vim com quatro caixas de vinho). Além de todos os vinhos que trouxe, o que fica e o que deixa marcas profundas e permanentes é o conhecimento adquirido, as pessoas incríveis que conheci, as diferentes visões de mundo, todos sentados em volta de uma mesa enorme, em perfeita comunhão em meio ao caos. Assim também como é a vida, não é?

Santè

Leia o artigo completo no Cave Winex Journal