A hospitalidade como parte do terroir
Por Tati Feldens · 08 de junho de 2026
Nem tudo o que faz um vinho especial cabe na ficha técnica.
Recentemente, fui com um amigo visitar a pequena vinícola Montaneus Vinhos Vivos, da Gabriela Suthoff, no interior de Farroupilha. A ideia inicial era conhecer os vinhos, entender os processos e passar algumas horas entre barricas, taças e pipas. Mas a visita revelou algo maior do que isso.

Antes mesmo de chegarmos à cave, fomos recebidos dentro da casa da Gabriela. Foi ali que a jornada realmente começou.
Existe uma diferença importante entre conhecer uma vinícola tradicional e ser recebido por alguém que abre a intimidade da própria casa antes mesmo de apresentar o próprio vinho. As taças já estavam postas no balcão e algumas garrafas já haviam sido separadas pela Gabi.

A conversa começou naturalmente e, sem perceber, passamos a falar não apenas sobre vinho, mas sobre vindima, clima, família, rotina, mercado e os desafios de quem produz em pequena escala.
Com o decorrer da conversa e da hospitalidade, fui reforçando a percepção que já tinha sobre o porquê de certos vinhos permanecerem na memória mais do que outros: pequenos produtores não trabalham apenas com produto. Existe envolvimento pessoal em cada etapa. Existe uma relação direta entre a vida de quem produz e aquilo que chega à taça.
Quando seguimos para a cave, a transição aconteceu de forma natural. Não havia separação clara entre casa, vinícola e história pessoal. Tudo fazia parte do mesmo universo.
Lá em cima, a poucos metros da casa onde a Gabi vive com os filhos (eles não estavam lá no dia), entre pedra, madeira, concreto e cheiro de fermentação, começamos a provar vinhos diretamente da pipa. Essa foi uma das partes mais interessantes da experiência, porque há algo muito diferente em degustar um vinho que ainda está em processo.

Para o vinhateiro que o produz, o vinho que segue na pipa ainda não chegou ao resultado. Está evoluindo, buscando equilíbrio, mudando lentamente.
Alguns deles estavam ali havia menos de dois meses e, na empolgação da conversa, já nos sentíamos prontos para engarrafar, rotular e comercializar imediatamente. Entre uma taça e outra, começamos a brincar sobre possíveis blends, imaginar cortes e pensar em verticais de diferentes safras.
As explicações técnicas vieram acompanhadas de histórias. Aos poucos, a conversa ficou mais leve, mais espontânea, e o ambiente da cave criou uma proximidade difícil de reproduzir em degustações formais. Estávamos ali de maneira despretensiosa — ora em pé, ora sentados na janela, circulando pelo espaço, dividindo taças.

Em determinado momento, comentamos que aqueles vinhos pareciam ainda mais interessantes ali, dentro da cave, do que quando provados posteriormente em garrafa. E isso tinha menos relação com técnica e mais com conexão emocional.
Claro que existe terroir, clima, manejo e vinificação. Mas também existe o contexto. Existe o caminho até a vinícola, a taça compartilhada, a conversa antes da degustação e a sensação de estar entrando, ainda que temporariamente, no cotidiano de quem produz.
A hospitalidade, nesse caso, não aparecia como serviço. Aparecia como extensão natural da forma como aquela vinícola existe.
Fiquei pensando que os vinhos da Montaneus, hoje presentes em restaurantes importantes e cada vez mais reconhecidos, como D.O.M., Tuju, Esther Rooftop, OCRE e Casa Vivá, carregam justamente isso que não cabe em ficha técnica: a capacidade de transformar uma visita em memória.
Quando eu estiver num desses restaurantes e olhar a carta de bebidas não pensarei duas vezes sobre a minha escolha. A conexão emocional sempre falará mais alto.