ACASA e o prazer de montar a própria harmonização

Por Tati Feldens · 15 de junho de 2026

ACASA e o prazer de montar a própria harmonização

Quando a escolha do vinho também entra para o cardápio da experiência.

Tem novidade em Porto Alegre e eu vou te contar. A terceira edição da ACASA, projeto idealizado pela Embaixada Gourmet, do empresário Lúcio Martins, ganhou um novo endereço em 2026: agora acontece dentro da Terrunyo Wine Store, na Plínio Brasil Milano. E a mudança transformou bastante a percepção que temos sobre o jantar.

A proposta chama atenção: um menu degustação fixo, sazonal, em oito etapas criado pelo chef gaúcho William Williges, servido dentro de uma das maiores importadoras de vinhos da cidade. Embora não seja tão comum encontrar um local que trabalhe exclusivamente com menu degustação em Porto Alegre, o diferencial está em outro ponto: qualquer vinho disponível na loja pode ser escolhido para harmonizar o jantar — pelo valor de prateleira.

É justamente aí que a ACASA se diferencia da maioria dos restaurantes da cidade. Quem costuma frequentá-los sabe que a harmonização quase sempre chega pronta à mesa. E não há nada de errado nisso. Funciona muito bem, inclusive.

Mas, quando a escolha também passa a fazer parte do jantar, o momento ganha uma camada extra de envolvimento — especialmente quando se está entre amigos que gostam de explorar o universo do vinho.

Antes mesmo de nos sentarmos, circulamos entre as prateleiras escolhendo os vinhos da noite. Entre dúvidas sobre um Pinot francês e um Carmenère chileno, fomos de “pinozinho” para começar. Sem que as amigas percebessem, já deixei combinado com o garçom um segundo rótulo mais estruturado para as próximas etapas.

Com as escolhas feitas — ou pelo menos provisoriamente feitas — começaram a chegar os primeiros pratos da noite. Abrimos a noite com os snacks: tartelete de nori com camarão e alho-poró e um katsu sando de borussia com kimchi, acompanhados pelo Pinot Noir escolhido pela mesa.

A partir dali o menu “Imigrantes” foi revelando com mais clareza a proposta do chef: pratos que trabalham identidade e memória em uma linguagem contemporânea. O milho crioulo veio à mesa com uma textura deliciosa de pudim e o tomate fermentado imediatamente me remeteu à famosa azeitona explosiva que provei no restaurante do chef José Avillez, em Lisboa.

À medida que o menu avançava, também era hora de mudar o rumo do vinho. Na sequência, veio o lombo de cordeiro com molho de mostarda alemã, mel e missô, acompanhado de pinhão e furikake. Foi nesse momento que entrou o segundo rótulo da noite: o Domaine Saint Patrice Côtes du Rhône 2021, trazendo mais estrutura para acompanhar o prato. Um vinho delicado e ao mesmo tempo potente, perfeito para acompanhar aquele momento.

![Domaine Saint Patrice Côtes du Rhône 2021.jpg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/Domaine_Saint_Patrice_Cotes_du_Rhone_2021_214f99168f/Domaine_Saint_Patrice_Cotes_du_Rhone_2021_214f99168f.jpg)

Éramos seis à mesa, mas apenas quatro bebiam vinho. Em circunstâncias diferentes, talvez tivéssemos aproveitado a oportunidade para explorar ainda mais as prateleiras da loja, que reúnem rótulos de todos os continentes suficientes para muitas visitas.

Ouso a dizer que o maior mérito da atual versão da ACASA é justamente esse: transformar a harmonização em parte da diversão. Em vez de simplesmente aceitar as escolhas de alguém, o cliente participa da construção da própria noite. Escolhe, arrisca, compara e aprende ao longo do caminho.

![jantar acasa.png](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/jantar_acasa_cd1ab4f12f/jantar_acasa_cd1ab4f12f.png)

Essa sensação também aparece no próprio ambiente. O espaço mantém a sofisticação, mas sem excesso de formalidade. As pessoas circulam pela loja, trocam sugestões, observam garrafas e constroem o jantar junto com a experiência.

Quando percebemos, éramos os últimos na casa. Fechamos a noite praticamente junto com a equipe e só não abrimos uma terceira garrafa porque as luzes começaram a ser apagadas.

Ficou a vontade de voltar. De reunir mais amigos do vinho, de testar novos menus (Lúcio antecipou que terá uma outra grande novidade: um menu degustação de happy hour) e de descobrir outros rótulos escondidos entre aquelas prateleiras.

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