As mulheres que deixaram o território falar primeiro

Por Tati Feldens · 13 de julho de 2026

As mulheres que deixaram o território falar primeiro

No OCRE, Roberta, Vanessa e Gabriela deram protagonismo ao produtor no jantar.

Conheço os vinhos da Gabriela Suthoff há muitos anos. Antes mesmo de conhecê-la pessoalmente, eles já faziam parte da minha mesa. Algumas semanas atrás, ela abriu as portas da própria casa e da pequena vinícola para uma degustação exclusiva. Passei uma tarde ouvindo histórias que começavam no vinho, mas quase sempre terminavam nas pessoas: agricultores familiares, escolhas, território e tempo.

Na última semana, nos reencontramos em outro cenário. Ela estava acompanhada do filho pequeno e ocupava discretamente um lugar entre os convidados da quinta edição do Wood com Sud, em Gramado. À primeira vista, parecia apenas mais uma apreciadora de gastronomia. Mas não era. Naquela noite, os vinhos servidos em todas as harmonizações eram dela. Achei curioso que quase ninguém soubesse disso. Acabei contando isso apenas para quem estava à nossa mesa.

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E ela parecia gostar que fosse assim. Enquanto a equipe do sommelier Gustavo Buske apresentava cada rótulo da Montaneus, a mesa ao lado comentava entusiasmada. "Que vinho maravilhoso." "Esse Trebbiano é espetacular". Concordei quando chegou o Merlot: "Está muito elegante." A Gabriela apenas sorria.

Em determinado momento, perguntei se ela estava orgulhosa. Ela respondeu com tranquilidade e voltou a observar as mesas. "Estou. Está fazendo bonito. Está harmonizando. Fico observando, escutando as conversas. Está todo mundo feliz com o vinho. Todo mundo gostando."

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Na cozinha, Roberta Sudbrack recebia, pela primeira vez no Wood com Sud, uma chef internacional. Vanessa Gonzalez, do lendário Parador La Huella, de José Inácio, atravessou a fronteira trazendo apenas suas referências. Em vez de trazer ingredientes do Uruguai, preferiu conhecer produtores da Serra Gaúcha e cozinhar a partir do que encontrou aqui.

A chef à frente do OCRE, restaurante do Wood Hotel, resumiu a parceria em poucas palavras: "Quando duas cozinhas que pensam da mesma forma se encontram, o resultado dificilmente é apenas um jantar." As duas compartilhavam a mesma visão de cozinha. Uma cozinha que começa muito antes do fogão: no agricultor, no produtor de queijo, no tempo de cada ingrediente e no respeito ao território.

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Foi assim que um clássico uruguaio como o Martín Fierro ganhou um queijo artesanal brasileiro. Que a língua bovina encontrou ingredientes da Serra. Que os cogumelos vieram acompanhados de uma polenta que parecia resumir toda a memória afetiva do Sul.

No preparo de Roberta, a lagosta e as ovas de salmão encontraram o milho levemente defumado, ingrediente profundamente presente na cultura brasileira. Vieram ainda o leitão assado no forno a carvão com abóbora e cebola caramelizada e um delicado latte cotto, um leite cozido lentamente que lembrava uma panna cotta, servido com framboesas frescas e leite caramelizado.

Enquanto os pratos revelavam esse território, os vinhos ampliaram a mesma narrativa. Tivemos o privilégio de ouvir a própria Gabriela apresentar cada um deles apenas à nossa mesa. O Trebbiano que, segundo ela, "sonha em ser brasileiro". O Pinot Noir construído pacientemente a partir de diferentes macerações. O primeiro Merlot da Montaneus, inspirado no arquétipo da Anciã, símbolo da maturidade. Até o vermute servido na sobremesa havia sido criado especialmente para aquele encontro: um blend de Chardonnay e Nebbiolo, na proporção 60% por 40%.

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As três trabalhavam matérias-primas diferentes, mas pareciam movidas pela mesma ideia. Roberta cozinhava. Vanessa reinterpretava receitas do La Huella com ingredientes da Serra. Gabriela transformava o trabalho dos pequenos produtores em vinho. Nenhuma delas colocava a si mesma no centro da experiência. O protagonismo era sempre do território e das pessoas que o tornam possível.

O jantar terminou entre agradecimentos, abraços e aplausos. Pouco antes, Roberta havia comentado a alegria de ver, pela primeira vez, o Wood com Sud conduzido por três mulheres. Não havia ali qualquer discurso ensaiado. Apenas o reconhecimento de que três trajetórias diferentes haviam construído a mesma narrativa naquela noite.

Escrevendo este texto, lembrei da resposta que a Gabi me deu quando perguntei se estava orgulhosa. "Está fazendo bonito", disse ela. Na hora, achei que ela estivesse falando dos vinhos, quando, na verdade, estava falando da noite inteira.

Roberta, Vanessa e Gabriela escolheram caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar. Mas, no fim, as três fizeram exatamente a mesma escolha: deixaram que o território ocupasse o centro da mesa.

Crédito das fotos: Gustavo Merolli

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