Bolhas pra começar, bolhas para terminar
Por Juliano Salles · 03 de outubro de 2026
Entre o começo e o fim da noite, algumas bolhas gostam de confundir os dois
Existe uma coisa curiosa nas bolhas.
Elas parecem ter vocação para iniciar qualquer programa.
Chegam antes da comida, antes do prato principal, às vezes antes mesmo de todo mundo ter sentado. Uma garrafa é aberta, as taças começam a circular e, de alguma maneira, a noite parece oficialmente autorizada a começar.
Não sei, exatamente, se é pelas bolhas, pela temperatura, pela acidez ou pelo simples fato de que abrir uma garrafa dessas produz um pequeno acontecimento.
O estampido da rolha ajuda.
Não precisa ser aquele estouro de Fórmula 1. Mas pode.
A abertura que quisermos cumpre bem o papel.
A primeira taça chega e alguma coisa muda. A conversa fica mais solta, a comida pode esperar alguns minutos e a mesa, de certa forma, já começou.
Tenho um grande amigo que o vinho me deu, Fabio Sabini, que costuma resumir essa relação com uma frase que gosto e concordo muito:
**“Bolhas pra começar e bolhas pra terminar.”**
É simples. E, quanto mais penso nela, mais percebo que ela explica uma característica curiosa dos espumantes.
**As bolhas não precisam de um momento específico para fazer sentido.**

Elas podem abrir a noite, acompanhar o primeiro brinde, receber quem chegou, ocupar aquele espaço em que ainda estamos escolhendo o que comer e descobrindo para onde a conversa vai.
Aí vem um espumante leve, direto, daqueles que desaparecem da taça com uma velocidade que merece investigação.
As bolhas não exigem uma ficha técnica antes de serem abertas.
E isso é parte do encanto.
Quem gosta de vinho sabe disso.
Quem não gosta de vinho pode simplesmente gostar das bolhas.
E isso é maravilhoso.
Só que elas também podem aparecer quando tudo isso já aconteceu.
Depois do branco, do tinto, da comida, das histórias e daquela sensação de que já bebemos tudo o que havia para beber, alguém abre uma garrafa de espumante.
E as bolhas voltam.
Só que agora não estão inaugurando a noite.
Estão tentando encerrá-la.
E existe uma diferença importante entre encerrar uma refeição e encerrar uma noite.
A primeira pode e vai acontecer.
A segunda costuma exigir um pouco mais de negociação com os envolvidos.
Meus encontros com o Fábio sabem bem desse roteiro.
**Não sei se existe instrumento mais eficiente para adiar uma despedida do que uma garrafa que chegou justamente para ajudar a encerrá-la.**
E que sorte a nossa que seja assim.
Porque justamente aí é que está uma das melhores características das bolhas: elas conseguem participar tanto da abertura quanto do encerramento sem parecer deslocadas em nenhum dos dois momentos.
No começo, existe uma espécie de expectativa.
Ainda não sabemos exatamente como será a noite. A garrafa ajuda a colocá-la em movimento.
No fim, existe outra coisa.
Já sabemos que a noite foi boa, a mesa está cheia de taças vazias, os pratos contam histórias próprias e as conversas começaram falando do mundo e terminaram sabe-se lá onde.
As bolhas chegam para dizer que está na hora de terminar.
Só que ninguém disse que precisamos obedecer.
É aí que a frase do Fabio ganha ainda mais graça.
Porque “bolhas pra terminar” parece uma definição de encerramento, mas na prática pode ser apenas uma nova oportunidade de começar alguma coisa.
Uma conversa.
Uma garrafa que alguém estava esperando para abrir.
Uma última taça que, como quase toda última taça, está sujeita a revisão.
**As bolhas têm essa capacidade quase inconveniente de sugerir que alguma coisa está começando mesmo quando já deveria estar acabando.**
Uma última taça pode ser exatamente isso: Uma última taça.
Até alguém perguntar:
**“Vamos abrir mais uma?”**
E pronto.
As bolhas, que tinham chegado para terminar, acabaram de ganhar uma nova função.
Começar tudo de novo.