Cantinas preservadas ampliam turismo vitivinícola no Brasil

Por Cave Winex · 10 de setembro de 2026

Cantinas preservadas ampliam turismo vitivinícola no Brasil

Visitação e experiências ajudam imóveis históricos a manter atividade

A história de uma antiga vinícola não está apenas no que os olhos alcançam do lado de fora. Está também escondida atrás das paredes, nos porões e na maneira como os espaços foram construídos e organizados para produzir e guardar o vinho. Os detalhes ajudam a revelar como a cantina funcionava e, muitas vezes, são eles que dão à construção seu valor histórico. Um vinhedo pode ser reconhecido de longe, mas uma antiga cantina exige um olhar para dentro. É nesses espaços, nem sempre visíveis para quem observa a propriedade de fora, que parte da história da produção de vinho permanece preservada. Cuidar de antigas edificações também significa preservar a memória dos imigrantes italianos que ajudaram a construir a tradição vitivinícola da Serra Gaúcha. No Rio Grande do Sul, o maior conjunto de edificações características está reunido em um roteiro rural de cerca de doze quilômetros, o Caminhos de Pedra, no distrito de São Pedro, em Bento Gonçalves. A própria organização do roteiro descreve o acervo como o maior conjunto arquitetônico da imigração italiana em meio rural do país, com casas de pedra centenárias, moinhos e cantinas coloniais ainda de pé. A imigração italiana no estado começou em 1875 e o repertório construtivo que veio com ela é o que se vê ali. A valorização do conjunto também passou pelo poder público. A lei estadual 13.177/ 2009 declarou o roteiro Caminhos de Pedra patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul. A mesma lei delimita a área de abrangência, que compreende a Linha Palmeiro e a Linha Pedro Salgado, nos municípios de Bento Gonçalves e Farroupilha. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) chegou a instaurar um processo de tombamento provisório do conjunto, que não avançou diante das necessidades de estudos mais aprofundados. Há proteção em âmbito estadual, mas o conjunto não possui tombamento federal.

Em Santa Catarina, o reconhecimento seguiu por outro caminho e abrangeu também propriedades associadas à imigração europeia. Em 2011, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) aprovou o tombamento de 61 bens representativos das imigrações alemã, italiana, polonesa e ucraniana no estado, dentro do projeto Roteiros Nacionais de Imigração. Os bens foram agrupados em oito categorias, entre elas, arquitetura de pequenas propriedades rurais residenciais, núcleos rurais e núcleos urbanos. O tombamento considera pequenas edificações isoladas e a forma como o patrimônio se distribui e se relaciona com o território.

Entre as propriedades, uma mantém relação direta com a história da produção de vinho em Santa Catarina. A Bez Fontana, em Rio Américo Baixo, no município de Urussanga, foi construída em 1927 e reúne uma casa de dois pavimentos, um oratório, uma serraria e um engenho movido por roda d'água. Em 2015, o IPHAN inscreveu o imóvel nos Livros do Tombo Arqueológico, Etnográfico, Paisagístico e Histórico. A família de Franz Bez Fontana vivia junto à cantina da propriedade, centro histórico da uva Goethe no Brasil, cultivada na região desde o início do século 20.

**Reconhecimento territorial**

Também a trajetória da uva Goethe recebeu reconhecimento formal. Em 2012, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à região o registro da indicação de procedência Vales da Uva Goethe, publicado na “Revista da Propriedade Industrial” número 2.145, a primeira indicação de procedência de Santa Catarina. A área delimitada tem 458,9 quilômetros quadrados nas bacias dos rios Urussanga e Tubarão. Em 2025, no número 2.840 da mesma publicação, o INPI aprovou a alteração da indicação geográfica, que passou de indicação de procedência para denominação de origem, a pedido da PROGOETHE, a Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe que detinha o registro anterior. Treze anos separam os dois reconhecimentos.

Em outras regiões vitivinícolas, o patrimônio construído também integra a valorização internacional atribuída ao território. Em 2015, a UNESCO, agência da ONU para educação, ciência e cultura, inscreveu na Lista do Patrimônio Mundial o Coteaux, Maisons et Caves de Champagne, na França, com base nos critérios culturais III, IV e V. A área reúne 14 locais distribuídos em três componentes, que incluem as encostas históricas de vinhedos, os edifícios das casas de champanhe na colina Saint-Nicaise, em Reims, e na Avenue de Champagne, em Épernay, além das redes subterrâneas de galerias e crayères, antigas pedreiras de giz. O reconhecimento alcançou o conjunto formado pela paisagem agrícola, pelas construções e pelo subsolo utilizado na elaboração e no armazenamento dos vinhos.

**Uso produtivo**

A preservação de uma construção ligada à produção também pode ocorrer sem interromper sua função original. A Cave Historique des Hospices de Strasbourg, na Alsácia, França, foi construída entre 1393 e 1395 no terreno do hospital civil da cidade e está classificada como monumento histórico desde 1929. O espaço permanece em operação e reúne mais de 40 tonéis antigos, alguns deles datados do século XVIII. Entre os vinhos ali conservados está uma produção de 1472, considerada a mais antiga mantida em um tonel de madeira.

A preservação de espaços históricos também pode integrar a atividade turística das vinícolas, mantendo as construções em uso. O “Relatório Global de Turismo do Vinho 2025” publicado em 2025 pela UN Tourism, em parceria com a Universidade de Geisenheim, na Alemanha, reuniu respostas de 1.310 vinícolas em 47 países. A degustação, a visita à cantina e a visita ao vinhedo aparecem entre as principais ofertas das vinícolas. Metade delas planeja novo aporte em turismo do vinho, enquanto um quarto das que ainda não atuam no segmento já decidiu começar. No levantamento, a cantina aparece como parte da experiência oferecida ao visitante.

**Cantina brasileira**

A preservação de construções antigas também encontra espaço em projetos vitivinícolas recentes no Brasil, fora dos roteiros tradicionais. A Cave Poseidon Microvinícola funciona desde 2019 em um casarão de 1939 na Vila Assunção, em Porto Alegre, descrito pela própria vinícola como uma edificação de estilo colonial espanhol californiano. O dentista e enólogo Carlo De Leo seleciona uvas de produtores de Campos de Cima da Serra e de outras regiões, no Rio Grande do Sul, e elabora os vinhos no imóvel. O projeto tem poucos anos, enquanto a construção reúne quase nove décadas de história no mesmo endereço.

A presença de uma construção antiga, contudo, não determina legitimidade ou a qualidade de uma vinícola. Uma casa recente pode produzir vinhos consistentes, assim como uma vinícola centenária não está necessariamente associada a uma produção de excelência. O valor de um imóvel preservado está em acrescentar à atividade produtiva um espaço visitável, no qual elementos da construção, referências históricas e práticas de elaboração podem ser observados diretamente. O Protocolo de Validação Cave, sistema próprio da Cave Winex que cruza consultoria humana com dados de terroir e informações do processo produtivo, considera o contexto entre os elementos analisados antes da entrada de um produtor no marketplace.

O patrimônio vitivinícola também pode estar na continuidade das práticas de uma família, mesmo quando não há uma construção histórica preservada. Em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, a Adega Giovanni Tasca mantém o nome do imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1882. São 12 hectares de vinhedos próprios, com plantio, cultivo, colheita, elaboração e comercialização realizados pela própria família, sem etapas terceirizadas. A produção atual concentra-se em vinhos finos e espumantes exclusivos. O imóvel não é tombado nem possui reconhecimento legal como cantina histórica. O que permanece ao longo do tempo é uma tradição de trabalho transmitida entre gerações desde o fim do século 19.

A comparação entre os casos brasileiros e europeus demonstra como o patrimônio vitivinícola pode se formar antes mesmo de qualquer valorização oficial. Em muitos deles, a construção permaneceu em uso por décadas antes de receber proteção legal ou algum tipo de registro institucional. Só depois vieram instrumentos como a legislação estadual, o tombamento federal, o registro de origem ou a inscrição em listas internacionais. Os mecanismos não criam o valor histórico de uma cantina, mas formalizam a valorização de uma construção e de uma atividade que já existiam. A continuidade da produção e a transmissão das práticas entre as gerações também integram o patrimônio, assim como a própria estrutura preservada.

**Fonte(s):** Lei estadual 13.177, de 10 de junho de 2009, Rio Grande do Sul; IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, tombamento de 61 bens do projeto Roteiros Nacionais de Imigração em Santa Catarina, 67ª Reunião do Conselho Consultivo, 3 de maio de 2011, e inscrição da Propriedade Bez Fontana nos Livros do Tombo em 2015; INPI, Instituto Nacional da Propriedade Industrial, registro da indicação de procedência Vales da Uva Goethe, RPI 2.145, de 14 de fevereiro de 2012, e mudança para denominação de origem, RPI 2.840, de 10 de junho de 2025; UNESCO, inscrição do bem Coteaux, Maisons et Caves de Champagne na Lista do Patrimônio Mundial, 4 de julho de 2015; Cave Historique des Hospices de Strasbourg, monumento histórico classificado desde 1929; UN Tourism e Universidade de Geisenheim, Relatório Global de Turismo do Vinho 2025, publicado em 7 de outubro de 2025;

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