O cardiologista que faz vinhos numa vinícola própria e foi o único brasileiro chamado para Nova York e Verona
Por Cave Winex · 16 de maio de 2026
Taquara fica a cerca de cem quilômetros de Porto Alegre.
Uma cidade tranquila, sem o glamour das rotas de enoturismo consagradas da Serra Gaúcha. Não tem hotel boutique com vista para vinhedos. Não tem restaurante com carta de harmonizações premiadas.
O que Taquara tem é Rubem Kunz.
Cardiologista de formação, Rubem passou boa parte da vida olhando o mundo do vinho de longe com a curiosidade de quem sente que existe algo mais profundo naquele líquido do que o mercado costuma mostrar. O avô era químico e fazia perfumes artesanais. O tio apresentou os primeiros vinhos nacionais ainda nos tempos da faculdade de Medicina em Porto Alegre. A história foi se construindo por camadas, sem pressa.
Quando Rubem decidiu que queria produzir vinho, construiu uma vinícola própria, homologada pelo MAPA com todos os parâmetros técnicos exigidos, ao lado da sua casa, em parceria com sua esposa Valéria. Sem insumos enológicos desnecessários, sem leveduras artificiais, sem filtração, sem clarificação. Fermentação espontânea com leveduras nativas do próprio ambiente. O mínimo de intervenção que a filosofia do vinho natural permite com toda a seriedade técnica que a produção exige.
A vinícola se chama Rua do Urtigão. E o que aconteceu com ela nos últimos anos é exatamente o tipo de história que o mercado de vinho não sabe como explicar mas que diz tudo sobre o que está mudando nesse setor.
**A prova às cegas que ninguém esperava** Em 2025, a Grande Prova Vinhos do Brasil chegou à sua décima edição. É o maior concurso do gênero no país, com 967 vinhos e espumantes avaliados por 21 especialistas durante quatro dias de degustações às cegas, os jurados não sabem o produtor, não sabem a região, não sabem o preço.
O Inanna Alvarinho 2023, da Vinhos da Rua do Urtigão, entrou nessa prova como qualquer outro rótulo: sem rosto, sem nome visível, sem a vantagem de uma marca conhecida.
Saiu como **Melhor Branco de Baixa Intervenção do Brasil**, com 92 pontos.
Num país onde o segmento de vinhos naturais ainda é visto por muitos como nicho de experimentalistas, um cardiologista que produz com rigor técnico e filosofia de mínima intervenção usando uvas orgânicas certificadas pelo Ecovida, vindas de municípios vizinhos bateu todo mundo na categoria. Às cegas. Mas o Alvarinho não é o único capítulo dessa história.
**O Cabernet Franc que começou tudo e continua vencendo**
Antes do Alvarinho conquistar o país, foi o **Cabernet Franc Poeira** que projetou a Rua do Urtigão nacionalmente.
A safra 2020 recebeu **93 pontos da Revista Gula**, uma das avaliações mais respeitadas do vinho brasileiro e colocou pela primeira vez o nome de Rubem Kunz no radar dos especialistas. Um tinto elaborado com uvas de Monte Belo do Sul, com inspiração nos clássicos franceses do Vale do Loire: aromas de frutas vermelhas, violetas, alcaçuz e notas herbáceas, com equilíbrio preciso entre taninos, álcool e acidez preservada no ponto ideal da colheita.
A safra 2022 confirmou que não foi sorte. Durante a ViniBra Expo, no Rio de Janeiro, o Cabernet Franc Poeira 2022 conquistou **medalha Gran Gold e 93 pontos** no Wine of Brazil Awards, concurso realizado durante um dos principais eventos vitivinícolas do país, na categoria de Vinhos de Menor Intervenção. Dois vinhos diferentes. Duas safras distintas. A mesma pontuação. A mesma filosofia.
**O convite de Nova York e agora Verona**
A Raw Wine é a maior comunidade mundial de produtores de vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais de baixa intervenção. Fundada pela francesa Isabelle Legeron, primeira mulher a receber o título de Master of Wine da França, a plataforma reúne quase três mil produtores de todo o mundo e realiza feiras anuais em grandes capitais globais: Nova York, Londres, Los Angeles, Toronto, Montreal, Tóquio, Copenhague, Berlim, Paris e Verona.
Para um produtor entrar na Raw Wine, não basta se inscrever. É preciso ser chancelado por outros membros já reconhecidos pela comunidade. A Vinhos da Rua do Urtigão passou por esse processo e foi aceita.
Em novembro de 2024, a vinícola de Taquara foi **a única representante brasileira na Raw Wine Fair de Nova York.** Entre quase três mil produtores de todo o mundo, da Borgonha à Geórgia, do Piemonte ao Oregon, havia um cardiologista gaúcho com sua operação de mínima intervenção, suas uvas orgânicas e seus vinhos sem filtro, sem clarificação e sem sulfitos adicionados.
_"Eu sempre sonhei em poder apresentar meus vinhos em uma feira dessas"_, disse Rubem, com a simplicidade de quem passou anos construindo algo sem saber exatamente onde ia chegar.
Em 2026, o ciclo se repetiu e se ampliou. A Rua do Urtigão esteve presente na **Raw Wine dentro da Vinitaly**, em Verona, Itália uma das mais importantes feiras de vinho do mundo, realizada anualmente na capital do Amarone. Mais uma vez, um dos únicos brasileiros num palco que reúne o que há de mais relevante na produção de vinhos naturais do planeta.
**O que essa história revela sobre o vinho brasileiro**
Monte Belo do Sul tem 2.700 habitantes e 2.270 hectares de parreirais. É, proporcionalmente, o maior produtor de uvas per capita da América Latina. Colonizada em 1877 por 416 famílias italianas vindas de Udine, Mantova, Cremona e Veneza, a cidade guarda um dialeto vêneto que ainda se ouve nas conversas de calçada e uma concentração de vinícolas familiares que fazem vinhos naturais que raramente chegam a São Paulo ou Rio de Janeiro.
Esse é o Brasil do vinho que o mercado ainda não conhece.
Não são conglomerados. Não são marcas com budget de marketing. São famílias que cultivam a mesma terra há gerações, filhos de enólogos que voltaram para casa depois de estudar em Bordeaux ou Mendoza, cardiologistas que transformaram uma paixão numa vinícola técnica e premiada internacionalmente.
O problema não é falta de qualidade. É falta de visibilidade.
Enquanto as grandes importadoras dedicam energia e capital para colocar rótulos europeus e sul-americanos nas prateleiras dos principais pontos de venda do país, esses produtores ficam invisíveis para o consumidor que estaria disposto e feliz em pagar pelo que eles fazem. O vinho existe. A história existe. O terroir existe. O que falta é a conexão.
**Por que isso importa para quem está do outro lado da taça**
Quando você bebe o Inanna Alvarinho ou o Cabernet Franc Poeira da Rua do Urtigão, não está bebendo um produto de linha. Está bebendo a decisão de um médico de construir uma vinícola com rigor técnico e alma de produtor artesanal. Está bebendo leveduras nativas que vivem no ambiente natural de Taquara, não numa embalagem industrial. Está bebendo vinhos que convenceram júris especializados, às cegas e em concursos internacionais, de que estavam entre os melhores do país nas suas categorias.
E esteve numa feira em Nova York. E em Verona.
Essa é a história que vai bem num jantar. Que faz a conversa parar. Que transforma uma taça de vinho num ponto de partida para algo maior.
O Brasil tem dezenas de Rubens Kunz espalhados pela Serra Gaúcha, pela Campanha, pelo Vale do São Francisco, pelos planaltos catarinenses. Produtores com histórias extraordinárias e garrafas que chegam ao consumidor certo com uma frequência muito menor do que deveriam.
A questão não é encontrar o melhor vinho do mundo. É saber onde olhar.
_Na Cave Winex, a curadoria começa exatamente onde o mercado tradicional para de procurar. A Otília conhece os produtores invisíveis e sabe qual história cabe na sua próxima taça._
[→ Descubra os vinhos de Rubem Kunz!](https://cavewinex.ai/vinicolas/vinhos-da-rua-do-urtigao)