A casta que quase foi esquecida — e só existia em uma única vinha, com 200 pés
Por Cave Winex · 26 de junho de 2026
Algumas uvas quase desapareceram de verdade. Esta sobreviveu por acaso.
Existem castas de uva que não se espalharam pelo mundo. Algumas, na verdade, nunca saíram de um único pedaço de terra, e algumas só sobreviveram porque alguém, por acaso, encontrou a vinha certa antes que ela desaparecesse de vez.
Foi o que aconteceu em Portugal, perto de Sendim, no planalto Mirandês, com uma casta chamada Tinta Gorda. O produtor António Boal e o enólogo Paulo Nunes encontraram uma vinha velha com cerca de 200 pés de uma variedade que ninguém conseguia identificar, nem o agricultor que cuidava dela sabia exatamente o que era. Pesquisas posteriores confirmaram: tratava-se de uma casta autóctone daquela micro-região específica, com expressão tão diminuta que praticamente não existia registro dela em nenhum outro lugar. Dois anos depois, nasceria o primeiro vinho monocasta de Tinta Gorda já documentado.
Esse tipo de história não é exceção em Portugal, é quase rotina. Segundo o próprio Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), Portugal tem mais de 250 castas autóctones identificadas, tornando-o o país com maior diversidade de variedades nativas por quilômetro quadrado do mundo, numa área territorial menor do que o estado do Rio Grande do Sul. Muitas dessas castas têm nomes tão regionais quanto curiosos: Rabo de Ovelha, Carrega Burros, Esgana Cão e algumas sobrevivem hoje apenas graças a bancos de germoplasma e a projetos de preservação que correm contra o tempo: especialistas alertam que, sem esse trabalho ativo de conservação, parte dessa diversidade genética simplesmente desapareceria entre uma geração e outra. É um lembrete de que a história de uma casta de uva nem sempre é sobre conquistar o mundo. Às vezes é sobre sobreviver em um único lugar, e sobre alguém decidir que aquilo vale a pena ser salvo.
O Brasil também tem suas próprias histórias de resgate genético, com produtores dedicados a recuperar variedades quase esquecidas em microrregiões específicas do país.
Para conhecer os produtores brasileiros acesse:
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