Existe uma pergunta que ouço com frequência: "Você só bebe vinho brasileiro?"
Por Fabio Sabini · 16 de julho de 2026
Não. Mas quase.
E não é por patriotismo, sustentabilidade ou incentivo. É porque, depois de muitos anos bebendo vinho, descobri que a maior riqueza de uma garrafa não está apenas dentro dela. Está na história de quem a produziu.
Quando escolho um vinho brasileiro, quase nunca estou comprando apenas um rótulo. Estou encontrando e reencontrando pessoas.
Tenho o privilégio de visitar vinícolas diversas vezes ao ano. De acompanhar uma safra nascer, outra amadurecer e uma terceira finalmente chegar à taça. De provar um vinho ainda no tanque e voltar meses depois para entender como ele evoluiu. Essa recorrência muda completamente a relação com o vinho.
Conhecer o produtor transforma o consumo e me transforma.
E são bons? São os melhores...mas sobre isso conto outra hora.
E tem uma confissão que costuma surpreender as pessoas: eu continuo achando que entendo pouco ou nada de vinho. Não sou enólogo (estou em formação), não sou sommelier e não decoro fichas técnicas. Mas hoje sou capaz de reconhecer uma uva, identificar uma safra, lembrar um corte ou descobrir quem fez um vinho... desde que sejam os meus. Os meus produtores favoritos. Os meus vinhos. Os meus amigos. Os meus melhores encontros. Porque esse conhecimento não veio dos livros, veio da convivência.
Hoje posso dizer que tenho amigos no vinho. Pessoas como James ou o Acir, produtores que visitei inúmeras vezes e que me ensinaram muito mais do que técnicas de vinificação. Eles me ensinaram sobre perseverança, paixão, autenticidade, risco e propósito.

Quando você conhece quem faz, cada garrafa ganha contexto. Você entende por que determinada safra foi diferente. Descobre o motivo de uma mudança de corte, de um novo experimento, de uma decisão difícil tomada no vinhedo meses antes da colheita.
O vinho deixa de ser um produto. Passa a ser uma conversa que continua a cada taça. Há também uma vantagem prática: beber local permite experimentar muito mais.

Consigo acompanhar diferentes safras do mesmo rótulo, provar lançamentos rapidamente, visitar novamente uma vinícola para entender sua evolução e, muitas vezes, comprar vinhos de qualidade equivalente aos importados por valores muito mais justos. Sem falar na facilidade de encontrar novidades antes que desapareçam do mercado.
Mas talvez o maior benefício seja outro.
O vinho aproxima pessoas.
Nas vinícolas brasileiras encontrei produtores, enólogos, sommeliers, consumidores apaixonados, amigos e amores que provavelmente nunca teria conhecido se minha adega fosse formada apenas por rótulos estrangeiros ou do supermercado. As conversas se multiplicam, as visitas se tornam tradição e o conhecimento circula com uma velocidade que só existe quando estamos próximos.
Foi justamente convivendo com esse ecossistema que nasceu a inspiração para criar a Cave Winex.
A ideia nunca foi construir apenas uma plataforma sobre vinhos. Sempre quis criar um lugar onde histórias também pudessem ser compartilhadas. Onde quem produz, quem vende e quem bebe pode aprender junto.
No fim das contas, percebi que meu maior prazer não é somente abrir uma boa garrafa.
É saber quem plantou a uva.
Quem enfrentou a geada.
Quem apostou em uma variedade diferente.
Quem decidiu engarrafar um sonho.
Por isso continuo "viciado" em vinho local.
Porque beber perto aproxima.
E, para mim, essa talvez seja a melhor definição de um grande vinho: aquele que, além de encher a taça da qualidade, aproxima pessoas.