Fazer vinho, afinal, é um parto!
Por Michelle Landgraf · 07 de outubro de 2026
Na adega, acompanho cada etapa até chegar o momento de finalmente “dar à luz”
Como escrevi na coluna passada sobre minha experiência em Champagne, desta vez achei interessante partilhar as diferentes fases da produção, sem maquiagem, sem festa, mas sim a verdade nua e crua da vida na adega e também o contexto em torno desse processo. Finalmente a vindima acabou, ou quase. Pontualmente, ainda temos algumas regiões e vinhateiros com condições (e principalmente estratégias) diferentes. Esse é um momento de reflexão sobre como tudo correu no último ciclo, e digo ciclo porque para mim a produção de vinho tem muito mais a ver com ciclos do que com anos.
As palavras e conceitos podem até se confundir, e alguns chegam a pensar que são a mesma coisa… talvez sejam… mas para mim é mais sobre o sentimento de iniciar, maturar, cuidar e finalmente “entregar” do que simplesmente acompanhar o calendário. Eu nutro profundo respeito pela mãe natureza e comparo o ciclo do vinho (não o da vinha) a uma gestação. Sou estranha e um tanto sentimental, eu sei.
A colheita terminou, mas o trabalho na adega exige agora muito mais dedicação e cuidado. Controle das fermentações, acompanhamento da conversão malolática, medições, coleta de amostras, análises em laboratórios etc. Tudo isso enquanto estamos ainda decidindo blends (ou cortes, palavra usada em Portugal) sobre os vinhos do ano passado. Estamos considerando engarrafar ou esperar, é uma loucura. E essa loucura é minha parte favorita do processo. Eu sei que vinho bom nasce na videira… acompanho todo o processo durante o ano, mas não sou eu quem efetivamente trata das vinhas.

Nas Hortas da Rainha tem gente muito mais qualificada do que eu para isso. Vamos conversando e trocando informações, tomando decisões juntos, mas meu trabalho e minha paixão estão mesmo concentrados na adega… afinal de contas, antes de produzir vinho eu sou cozinheira! Como nessa coluna meu objetivo é sempre contar a vida como ela é, direcionar os holofotes para as pessoas nos bastidores da produção, com seus sucessos e fracassos, vou dar um exemplo real.
Nosso vinho do ano passado (tinto) foi 100% feito em madeira, o único procedimento em inox foi mesmo a maceração (5 dias) e a prensagem. Depois disso decidimos colocá-lo em duas barricas de carvalho francês usadas, provenientes da região de Chablis, onde ele passou por todas as fases: fermentação alcoólica, malolática e amadurecimento.

Durante o ano fizemos algumas provas pontuais e ele estava indo bem, dentro do esperado. Mas há mais ou menos dois meses provamos e achamos que o tanino estava muito agressivo, e que uma das barricas tinha um residual de amargor no final de boca que me incomodou um pouco. Isso por si só poderia ser resolvido quando misturássemos o conteúdo das duas barricas antes de engarrafar.
Mas o tanino nos deixava muito desconfortáveis quando provamos… o corpo não estava agradável… o vinho pesava além do que queríamos. Discutimos a possibilidade de “cortar” com um percentual de vinho da uva Castelão (que eu particularmente adoro), para abrandar essa sensação e aliviar o peso.

Bem, o tempo passou, a vida nos atropelou e acabamos por não ter tempo de fazer isso, então o vinho continuou lá nas barricas… Chegou a vindima e aí mesmo é que deixamos para quando estivéssemos mais tranquilos (santa ingenuidade, Batman). Só quem fica tranquilo no mundo dos vinhos é quem bebe… quem faz disso profissão esquece essa palavra, ela simplesmente não cabe no nosso vocabulário.
Eis que então fizemos a vindima do ano e agora temos que tomar decisões que ditarão o rumo do próximo ciclo, porém o ciclo anterior ainda não acabou, já que o vinho 2025 continuava nas barricas (entende agora por que usar “ano” não parece certo?). Vamos lá então provar o vinho das barricas para determinar o corte/blend e tcharam! O vinho havia mudado completamente em 30, 40 dias!
O peso desapareceu, o amargor é só uma lembrança… os taninos são como um abraço gostoso em alguém vestido em puro veludo, macio e sedoso, com aquela sensação de afago, de carinho, de amor. O amor que temos pelo ofício, o amor que temos pela terra, o carinho e o respeito que temos por quem nela trabalha arduamente para nos entregar a melhor uva.
Como eu disse mais acima… a produção de vinho se assemelha a uma gestação, e agora, finalmente, teremos o parto da nossa “cria” de 2025. Então, quando o outono chega por aqui, é época de “nascimentos”, e logo, logo começaremos a ver os novos rótulos passeando pelo mercado. Esperamos grandes e deliciosas surpresas para breve, e mal posso esperar para provar tudo o que puder.
Saúde!