Garrafas escritas à mão

Por Priscila Perin · 04 de agosto de 2026

Garrafas escritas à mão

Cada safra conta uma história que nunca poderá ser repetida

Eu me lembro exatamente da primeira vez que vi uma garrafa produzida pelo Acir Boroto.

Era de um amarelo claro, quase luminoso, diferente de qualquer vinho que eu conhecia. Uma garrafa Borgonha com letras brancas grandes escritas à mão. Apenas uma palavra: Cramento.

![garrafa-boroto.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/garrafa_boroto_f135874dbe/garrafa_boroto_f135874dbe.jpeg)

Era verão em Porto Alegre. A garrafa apareceu como presente de aniversário em uma festa curiosa, daquelas sem comida, mas com muito vinho. Eu tinha resolvido ir ao aniversário de um quase desconhecido, alguém com quem poucas semanas antes havia dividido uma garrafa de Traminer gaúcho, às duas da manhã, em um pequeno bar de vinhos naturais da cidade.

O quase desconhecido virou um grande amigo. E foi com ele que bebi aquele Cramento.

A perlage era fina. Os aromas explodiam em carambola, flores e grama. Não se parecia com nada que eu já tinha bebido. O resto virou história. E das melhores.

Acir Boroto e Larissa Mazetto entraram definitivamente na minha vida. O pôr do sol do pequeno santuário onde o Cramento era produzido emoldurou alguns dos momentos mais felizes daquela fase.

![acir-boroto-amigos.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/acir_boroto_amigos_3bc5fb2ac6/acir_boroto_amigos_3bc5fb2ac6.jpeg)

O Cramento era um blend de Chardonnay, Viognier e Moscato. Nunca mais foi produzido.

Anos depois, ganhei uma garrafa daquela mesma safra.

O amarelo vivo tinha dado lugar ao âmbar. A perlage estava ainda mais fina. As ervas quase desapareceram, ou talvez apenas tivessem encontrado seu lugar naquele néctar de carambolas.

Era o mesmo vinho. E já era outro.

Depois do Cramento vieram Delicato, Puro Mato, Cosa Sara e tantos outros.

Os rótulos nem sempre se repetem. Faz parte da magia do vinho natural. O terroir entrega a uva. Cabe ao produtor interpretá-la e escrever, em cada garrafa, a melhor história que aquele ano permitiu contar.

![garrafaboroto.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/garrafaboroto_02c4862f47/garrafaboroto_02c4862f47.jpeg)

Seguindo essa estrada, sempre encontro gente de bem com a vida, comidas com sabores únicos e histórias de quem escolheu viver para além da vida padronizada.

É sempre um lembrete de que o vinho, assim como a vida, só revela seu melhor quando a gente deixa o tempo agir — e se permite fermentar por dentro da gente. Um jeito líquido de lembrar que tudo o que é vivo muda. E é justamente aí que mora a beleza.

Longa vida às garrafas escritas à mão.

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