Josko Gravner: onde as fronteiras se apagam e o rótulo fala

Por Priscila Perin · 13 de outubro de 2026

Josko Gravner: onde as fronteiras se apagam e o rótulo fala

As lembranças e impressões de quando visitei a lenda do vinho laranja natural

Esta é a memória de quando tive a alegria de conhecer os vinhedos, a produção e o icônico vinho âmbar de Josko Gravner.

Era verão no Hemisfério Norte. Depois de uma dose de Olimpíadas em Paris, fui encontrar uma prima que morava na pequena Castelfranco Veneto, no norte da Itália. O plano era alugar um pequeno carro elétrico, desbravar as colinas da região de Prosecco e cruzar a Eslovênia em direção à Croácia para alguns dias de praia.

Despretensiosamente, estudando as uvas e as histórias dos lugares por onde passaria, descobri que estaria muito perto do produtor daquele rótulo que me lembrava de ter visto em alguns lugares especialíssimos…

Consequência: o resto da viagem foi toda desenhada em função do dia em que estava agendada a visita à Josko Gravner.

![vinicola priscila-2.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/vinicola_priscila_2_221a96ebd7/vinicola_priscila_2_221a96ebd7.jpeg)

Na noite anterior, paramos na pequena e tão italiana Udine, na região do Friuli. Houve tempo para curtir um spritz na praça ao entardecer e visitar a Osteria Enoteca da Michele, com uma infinidade de opções de vinhos locais em taça e iguarias da região. Fui feliz com um prato de prosciutto San Daniele, massa, algumas taças de Ribolla e Refosco e conselhos confusos sobre a estrada do dia seguinte e o permesso que deveríamos adquirir antes de cruzar a fronteira.

No dia seguinte, dirigimos nosso pequeno Fiat 500 em direção à Eslovênia e ao nosso precioso destino — o protagonista desta história.

A vinícola Gravner fica em Oslavia, uma pequena fração da cidade de Gorizia, nas colinas do Collio, no extremo nordeste da Itália. (Vale o aviso: daqui em diante, o relato é fruto do que ficou gravado na memória e no afeto, sem a pretensão de ser estritamente técnico.)

![vinícola Gravner .jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/vinicola_Gravner_0c523b1eca/vinicola_Gravner_0c523b1eca.jpeg)

Para minha surpresa, nossa companhia na visita era uma mãe, produtora de vinhos no Paraná, e sua filha — uma feliz e rara coincidência naquelas terras.

Fomos aos vinhedos de Ribolla Gialla que se estendiam por parte da Itália e parte da Eslovênia. Conhecemos as ânforas gigantes produzidas na Geórgia e o sistema especial para carregá-las sem quebrá-las. Ouvimos a história de como Josko renovou seus vinhedos, resgatou a uva local e buscou incansavelmente produzir um vinho que respeitasse as técnicas de seus antepassados. Visitamos a sala onde as ânforas georgianas, enterradas no solo, armazenavam o vinho laranja de duas nações.

Em uma sala simples, fomos conduzidas a uma mesa onde duas taças — desenhadas especificamente para extrair o melhor daquele vinho — nos esperavam para a melhor parte.

![taca gravner.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/taca_gravner_09d6b5ef0f/taca_gravner_09d6b5ef0f.jpeg)

Imersa em todo aquele contexto, repassando os detalhes da história recém-ouvida e observando pela pequena janela os vinhedos que cruzavam fronteiras, bebi pela primeira vez o vinho laranja de Josko Gravner.

Sem mais explicações. Era hora de deixar o vinho falar.

Lembro-me da profundidade, do silêncio, da vibração. De como aquele primeiro gole me transportou para as ânforas, para as uvas, para as videiras, para a terra. O frescor, apesar dos 20 anos da safra, a untuosidade, a complexidade: uma explosão de sensações de um vinho com duas nacionalidades, cultivado em seu local de origem e vinificado à perfeição, com quase nenhuma intervenção.

Não tive a oportunidade de encontrar o Josko por lá. Mas me lembro de uma história que ouvi: um dia, a filha pequena quis comer uvas direto do vinhedo, e ele se preocupou com os produtos usados ali. Aquilo fez com que olhasse para o próprio trabalho de outro jeito e percebesse que seus vinhos já não contavam a história das uvas de onde vinham. Teve coragem de mudar o rumo, resgatar a Ribolla Gialla e voltar a atenção para formas antigas de fazer vinho. Muito antes da moda do natural, começou um caminho que inspira produtores pelos quatro cantos do mundo.

Quem sabe na próxima visita!

Quase dois anos depois, tive a alegria de compartilhar com amigos muito queridos e enófilos uma das garrafas que trouxe na mala naquele dia. Tive a prova de que as uvas contam a mesma linda história, mesmo depois de atravessar o oceano.

![garrafas-priscila.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/garrafas_priscila_061296ab94/garrafas_priscila_061296ab94.jpeg)

Tenho saudade dos meus amigos enófilos, de compartilhar garrafas e histórias, de decifrar aromas e sensações em cada rótulo trazido, sejam eles vindos de fronteiras tão distantes, sejam garimpados em algum mercadinho de uma cidade remota do Brasil.

A propósito, me lembrei de que, no fundo da minha adega, jaz escondida a outra garrafa trazida na mala. Com curiosidade, me pergunto: quando será a vez de ela de contar essa mesma história? Quem serão os ouvintes? Que outras memórias se misturarão? Ou vamos deixar só o vinho falar?

E termino essa memória com já saudade desse próximo gole.

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