O mundo está bebendo menos vinho do que em 1961

Por Cave Winex · 14 de maio de 2026

O mundo está bebendo menos vinho do que em 1961

menos que na era da TV em preto e branco.

Em abril de 2025, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho publicou seu relatório anual com um dado que parou o setor.

O consumo global de vinho em 2024 foi de 214,2 milhões de hectolitros, o menor volume registrado desde 1961. Uma queda de 3,3% em relação ao ano anterior. A sétima queda consecutiva desde 2018, com uma retração acumulada superior a 13% desde 2017.

Para ter dimensão: 1961 era o ano em que John F. Kennedy tomava posse nos EUA, a União Soviética lançava Yuri Gagarin ao espaço, e a televisão em cores ainda era artigo de luxo. O mundo era outro. E o consumo de vinho, naquele mundo, era maior do que em 2024.

O que aconteceu? E por que o Brasil está, paradoxalmente, na direção oposta?

Os números que explicam a crise global: A queda não é uniforme. Ela é concentrada em mercados específicos e os dois maiores do mundo estão no centro da explicação.

Os Estados Unidos, maior mercado consumidor de vinho do planeta, reduziram seu consumo em 5,8% em 2024, chegando a 33,3 milhões de hectolitros. É uma tendência que vem se acelerando desde 2022 e que está ligada a uma mudança geracional profunda: os americanos mais jovens simplesmente bebem menos álcool do que as gerações anteriores.

A China é o caso mais dramático. Em 2017, o país consumia 17,9 milhões de hectolitros de vinho e era o quinto maior mercado mundial. Em 2024, consumiu apenas 5,5 milhões, uma queda de 69% em sete anos. Só em 2024, a retração foi de 19,3%. O impacto chinês responde por cerca de 40% de toda a queda global de consumo entre 2017 e 2024.

A França, que inventou o vinho como o mundo conhece, registrou queda de 4%. A Itália e a Espanha também recuaram. A Europa, berço da vitivinicultura global, está bebendo menos.

O diretor-geral da OIV, John Barker, atribuiu o declínio a múltiplos fatores: mudanças nos gostos dos consumidores, diferentes preferências entre gerações, aumento de preços pela inflação e tensões geopolíticas, especialmente o conflito na Ucrânia, que em 2022 perturbou cadeias de suprimentos e encareceu toda a cadeia do vinho.

O movimento que ninguém queria nomear: sober curious Existe um fator que os relatórios mencionam de forma cautelosa mas que está no centro da transformação: a Geração Z está se relacionando com o álcool de forma fundamentalmente diferente das anteriores.

O movimento sober curious, a tendência de questionar a relação com o álcool sem necessariamente parar de beber, ganhou força global nos últimos cinco anos. Aplicativos de controle de consumo de álcool acumulam milhões de usuários. Cerveja sem álcool é o segmento de maior crescimento da indústria cervejeira global. Mocktails aparecem em cardápios de bares que antes nem cogitariam servir bebidas não alcoólicas.

Nos EUA, dados da Gallup mostram que a porcentagem de adultos que se consideram consumidores de bebidas alcoólicas caiu de 65% para 62% entre 2021 e 2023, a maior queda em décadas. Entre jovens de 18 a 34 anos, a queda foi ainda mais pronunciada: de 72% para 62% em dois anos.

O vinho, que por décadas cresceu junto com a sofisticação dos consumidores das economias avançadas, chegou num ponto de saturação nessas mesmas economias. O consumidor que já sabe o que é um bom Borgonha está bebendo menos, e o jovem que deveria estar descobrindo o vinho está, em proporção crescente, escolhendo não beber.

Por que o Brasil está na contramão? Enquanto os mercados maduros contraem, o Brasil cresce.

O mercado brasileiro de vinhos e espumantes encerrou 2025 com faturamento de R$ 21,1 bilhões, alta de 9% sobre 2024. O consumo per capita de vinho no Brasil é ainda muito baixo em comparação com países europeus, o que significa que o mercado tem enorme espaço para crescer antes de atingir qualquer saturação.

O próprio relatório da OIV reconhece: o vinho nunca foi consumido em tantos países, 195 no total, e o potencial de crescimento em nações populosas permanece. O Brasil é citado implicitamente nesse contexto de mercados emergentes com alto potencial.

A explicação para o crescimento brasileiro é composta por vários fatores simultâneos.

A classe média sofisticada está amadurecendo. O consumidor que descobriu o café especial, o queijo artesanal e a cerveja artesanal está chegando ao vinho. O mesmo processo de premiumização que transformou o mercado de bebidas em outros países está acontecendo no Brasil, com uma década de atraso e toda a energia que isso representa.

A demografica favorece. O Brasil tem uma população jovem mas que está envelhecendo, e o consumo de vinho tende a crescer com a faixa etária. Enquanto os jovens americanos evitam o álcool, os jovens brasileiros com renda e escolaridade mais altas estão descobrindo o vinho como símbolo de sofisticação e status social.

O mercado é novo o suficiente para não estar saturado. O Brasil consome cerca de 2 litros de vinho per capita por ano. A França consome 47. A Itália, 44. A Argentina, 20. Mesmo o Uruguai, nosso vizinho, consome 30. Há muito espaço para crescer antes de qualquer tendência de saturação fazer sentido aqui.

O que a crise global significa para o vinho que você bebe? A retração nos mercados maduros tem uma consequência direta que poucas análises mencionam: excesso de oferta em alguns segmentos.

Quando a produção global cai 5% mas o consumo cai mais do que isso em mercados específicos, cria-se uma pressão sobre os produtores para escoar estoque. No segmento de vinho de volume, o que vai para as prateleiras de supermercado sem história nem procedência verificada, essa pressão pode resultar em ofertas que parecem boas demais para ser verdade.

No segmento premium, a dinâmica é diferente. A queda global não está concentrada nos vinhos de R$ 200, R$ 300, R$ 500. Está nos vinhos de entrada, nos rótulos de volume, nos mercados de massa. O consumidor que escolhe com critério, que paga pelo terroir, pela história, pela procedência, continua presente e crescendo em proporção.

Os preços no comércio internacional, aliás, confirmam isso: apesar da queda de volume, os preços médios dos vinhos exportados ainda estão 30% acima dos níveis pré-pandemia, segundo a OIV. O mercado de qualidade está resiliente mesmo numa crise de volume.

A leitura que o Brasil pode fazer: O vinho está passando por uma transformação estrutural global. Os mercados que cresceram pelo volume, que venderam vinho como commodity, sem história, sem identidade, sem conexão com o produtor estão sofrendo.

O Brasil está num ponto único: mercado em crescimento, consumidor em sofisticação acelerada, produtores de qualidade com histórias extraordinárias para contar e terroirs únicos que o mundo ainda não descobriu completamente.

Enquanto o mundo bebe menos vinho do que em 1961, o Brasil está aprendendo a beber melhor.

Essa é uma janela. E janelas têm prazo.

_Na Cave Winex, apostamos que o crescimento do vinho brasileiro vai continuar porque está sendo construído sobre fundações corretas: qualidade, identidade e conexão real entre quem faz e quem bebe._

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