Nem todo defeito é poesia… mas poderia ser.
Por Juliano Salles · 12 de junho de 2026
Entre liberdade e critério, o vinho emociona sem explicações.
Sabe aquele momento curioso, quase eufórico e quase natural, quando se abre uma garrafa de vinho?
Alguém serve uma taça, outro alguém cheira primeiro — quase sempre em silêncio — e então vem uma pausa. Pausa curta, mas carregada. Não é exatamente dúvida. Também não é certeza. É mais uma tentativa coletiva (ou mesmo individual) de entender o que está acontecendo ali, naquele momento tão específico e definido.
Às vezes, alguém se antecipa: “Interessante…”
E aquela palavra fica no ar, fazendo um trabalho que não deveria ser dela.
Porque “interessante”, no vinho, pode ser quase tudo. Pode ser descoberta. Pode ser surpresa. Pode ser desconforto. Pode ser um jeito educado de não dizer que algo parece fora do lugar.
Nos últimos anos, vivendo e participando de muitas feiras de vinhos, muitas delas de vinhos naturais, fui percebendo algo que já é óbvio para muitos e uma grande descoberta para outros: o vinho natural trouxe de volta uma liberdade que o mundo do vinho, por muito tempo, tentou controlar. Menos intervenção, menos maquiagem, mais expressão. Pelo menos na teoria.
Na prática, abriu-se também um novo campo de interpretação - e, com ele, uma zona cinzenta:
Volátil demais? Pode ser identidade. Redução? Pode ser estilo. Um certo desvio? Talvez intenção.
E, de repente, aquilo que antes seria rapidamente classificado como defeito passa a circular como característica. E, às vezes é. Às vezes não.
Mas nem todo desvio é linguagem. Nem todo ruído é escolha.
Existe, sim, algo bonito na imperfeição quando ela carrega intenção - ou não. Quando faz parte de um gesto, de uma decisão, de um risco assumido por quem produz. Quando o vinho parece vivo não porque perdeu o controle, mas porque alguém decidiu não o controlar completamente.
Nesses casos, o que poderia ser visto como falha ganha outra camada. Vira textura. Vira narrativa. Vira história e contexto. Vira, talvez, poesia.
Mas existe também o outro lado — aquele menos confortável de admitir.
Quando a imperfeição não comunica nada além de si mesma. Quando não há direção, só desvio. Quando o vinho pede interpretação demais e entrega de menos ou não entrega o esperado.
E é aí que mora um certo silêncio constrangedor à mesa.
Porque ninguém quer parecer conservador, de desconfiado dos modismos do vinho. Ninguém quer “não entender”. Então a gente aceita, adapta, traduz. Encontra palavras. Ajusta o paladar. Às vezes, até o próprio julgamento.
Só que liberdade sem critério não é expressão. É ausência.
E talvez o ponto não seja decidir o que é defeito e o que é característica - essa linha sempre foi móvel, e provavelmente sempre será.
Talvez o ponto seja outro.
Ter espaço para reconhecer quando algo emociona — mesmo sendo imperfeito – ou pouco convencional. E, penso, aí mora a maior beleza possível do vinho.
E também quando não emociona — mesmo sendo defendido como conceito.
Porque no fim, entre o erro e a intenção, existe um território mais honesto.
Aquele onde o vinho não precisa ser salvo pela narrativa.
E onde, às vezes, o defeito pode não ser poesia.
Mas às vezes é.