Notas de uma vida em transformação

Por Michelle Landgraf · 26 de agosto de 2026

Notas de uma vida em transformação

Um olhar brasileiro sobre o vinho e a vida na Península Ibérica

Foi com grande surpresa e enorme alegria que recebi o convite para escrever essa coluna para a **Cave Winex**. Com o convite, veio a reaproximação com uma amiga muito amada, além da oportunidade de voltar a praticar e efetivamente parar de procrastinar uma atividade que me dá enorme prazer: escrever.

Difícil foi escolher o primeiro tema, um misto de ansiedade, satisfação, certo orgulho e muito medo. Claro, medo do que as pessoas vão achar. Por isso revisitei um texto escrito em 2022, um mês antes de mudar radicalmente minha vida, pois em abril daquele ano peguei minha vida, minhas filhas e duas malas de 23 kg para atravessar o Atlântico e começar tudo de novo — outra vez.

Em tempos de novo período de mercúrio retrógrado (tão bom culpar os astros, não é mesmo?), deixo para vocês um gostinho do que eu devo escrever por aqui e do que podem esperar de mim… sarcasmo, honestidade, doses saudáveis de ironia e algum desabafo, além de importantes experiências com o vinho e o mercado europeu. Espero que vocês aproveitem a jornada. Apertem os cintos, portas em automático!

Eu sempre me considerei uma pessoa com sorte. E obviamente reconheço meu privilégio de ter nascido branca, embora numa família pobre, um tanto longe da vulnerabilidade social e econômica que assola o país. Porém, um amigo costumava dizer que sorte não existe e que tudo que eu conquistei foi por conta das minhas atitudes frente às adversidades. Gosto de pensar que sim, tem mérito meu, mas não posso deixar de lembrar de tantas outras que não conseguiram ultrapassar as barreiras impostas pela vida, destino, violência, capitalismo, sistema patriarcal etc.

Dito isso, se eu pudesse deixar uma mensagem para quem quer que possa ouvir, essa mensagem seria: não deixe o medo ou a dúvida sobre o futuro podar seus desejos de realizar o que quer que tenha almejado, se isso se mostrar minimamente possível.

Guardadas as proporções e realidades, eu sempre fiz o que queria fazer, sem condicionar a nenhum outro sonho ou objetivo que eu tivesse. E eles eram muitos. Não esperei terminar a faculdade pra casar, eu queria um casamento de princesa...fui morar de aluguel, mas meu vestido parecia ter saído de um conto de fadas (sim, eu enxergo a contradição). Casei, voltei pra faculdade... comprei um apartamento (financiado) e levei 4 anos pra decidir que estava pronta pra ser mãe, mesmo com toda a cobrança que sofri. Eu tive minha primeira filha... sem formação, sem casa quitada... sem carro. Mudei de emprego várias vezes, me separei... me apaixonei e quis ser mãe de novo. E fui. Sem casar, sem quitar a casa (o apartamento financiado ficou pra trás)... mas dessa vez o carro era meu! Rsrsrsrsrs

Deixei pra trás uma carreira consolidada de 21 anos, onde estava numa situação relativamente confortável, e fui atrás de ser feliz, de fazer algo que me realizasse. Abri um restaurante, fechei o restaurante. Fiz cursos, mudei de novo a estratégia de carreira. Viajei... muito! Corri mais de 10 países absorvendo tudo que eu podia da vida. Não sabia como seria depois, mas eu fui. E voltei... e sigo sempre buscando outros desafios, vivendo hoje sempre almejando outras conquistas, outros saberes.

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Eu digo e continuarei dizendo... as pessoas procuram sempre sair da sua zona de conforto. Eu gostaria de encontrar esse conforto (só às vezes), pois tenho a sensação de viver numa eterna zona de desconforto, buscando a próxima vida, a próxima aventura. Um pouco de loucura muito bem calculada não faz mal a ninguém, pelo contrário, pode nos fazer realizar coisas incríveis!

Desde 2022 moro em Portugal, onde desenvolvo a AR Cozinhas e Goles, uma plataforma que conecta gastronomia, vinho, arte, literatura e cultura. É daqui que pretendo construir uma ponte permanente entre Brasil e Península Ibérica, compartilhando não apenas histórias de imigração e recomeços, mas também tudo o que movimenta o universo do vinho.

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Nos próximos textos, quero falar das grandes feiras que percorrem a Europa, dos pequenos produtores que tenho encontrado pelo caminho, do crescimento dos vinhos naturais, do universo dos Vinhos de Jerez e da cultura do vermute, que vive um momento de redescoberta no Brasil, mas faz parte do cotidiano por aqui há muito tempo. Afinal, vinho também é uma forma de entender pessoas, lugares e culturas.

Leia o artigo completo no Cave Winex Journal