O lugar sem estrela

Por Priscila Perin · 24 de setembro de 2026

O lugar sem estrela

Quando abandonar o plano pode ser a melhor escolha em uma viagem

Sempre que me preparo para viajar, gasto um tempo considerável pesquisando os bares de vinho que deveria conhecer. Começo a seguir foodies e winelovers locais, procuro o Instagram dos estabelecimentos, analiso os rótulos que aparecem e observo a cara do lugar no Google Maps. É um trabalho minucioso para encontrar os que mais fazem sentido para mim. Às vezes, até escolho o hotel estrategicamente perto daqueles que mais me interessaram.

Mas quando se trata de Nova York, a pesquisa fica ainda mais complexa: como escolher entre tantas opções? Enchi meu Google Maps de estrelinhas e elegi um favorito para cada dia.

Foram boas escolhas.

![Priscila Perin - vinho branco.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/Priscila_Perin_vinho_branco_10e7e7f450/Priscila_Perin_vinho_branco_10e7e7f450.jpeg)

No St. Jardim, pequeno bar de esquina sempre cheio e embalado por vinis, encontrei uma bela seleção de vinhos naturais do mundo todo e um pour especial do dia. Bebi um lindo Grolleau de vinhedos recuperados no Loire e ainda saí de lá com uma listinha de outros bares para conhecer.

No Terroir, mais badalado, um festival de verão reunia mais de 30 Rieslings em taça. Mas fui feliz mesmo com um Grenache australiano de vinhas antigas.

Houve um dia, porém, em que o acúmulo dos 20 mil passos diários, a insistência do meu relógio interno em despertar no horário rotineiro e os negronis do jazz da noite anterior me deixaram sem vontade de seguir qualquer plano.

Naquele dia, os planos foram amassados e jogados pela janela. Bem jogados. Passeei pelas lojinhas perto do hotel, almocei um hambúrguer clássico e tirei uma soneca.

“E se eu simplesmente descer esta rua até o fim? Dou um tchauzinho para a Lady Liberty e depois subo pela margem do Hudson, olhando o rio.”

Segui aquela ideia que acabara de aparecer na minha cabeça sem nem mesmo a compartilhar com a Claret, minha fiel IA companheira de viagem.

Para fechar o dia, uma bela NYC slice. Consultei as estrelinhas do Google Maps: a hypada L’Industrie estava a 900 metros. Eram 17h30. Não devia estar cheia ainda.

Estava.

Uma fila na rua. Vamos encarar? Vamos. É só uma pizza e depois hotel. Eu já estou aqui.

O espaço era minúsculo, e uma quantidade absurda de gente se apertava para esperar e comer. De alguma forma, funcionava. A pizza era, de fato, perfeita. O aperto, nem tanto.

Bom. Feito. Agora, hotel. Sem bares de vinho por hoje.

Escolhi uma rua por onde nunca havia andado para começar o caminho de volta. Então vi um lugar que naturalmente me chamou a atenção. Balcão de frente para a rua, garrafas de vinho, uma placa dizendo “Natural Wine” e, na entrada, uma garrafa vazia de Strohmeier.

Como assim?

Aquele lugar não tinha uma estrelinha no meu Google Maps. Não aparecera em nenhuma das muitas pesquisas que fiz sobre os wine bars da vizinhança. Não é difícil imaginar que não resisti a entrar.

Sentei no balcão da janela, de frente para a rua. A carta de vinhos em taça era extensa e interessante: um Cabernet Franc do Loire de 2015, um Poulsard de Tissot. Era happy hour e, até as 19h, as taças tinham preço reduzido.

Pedi também a carta de garrafas. Tschida, Lapierre, muitos Juras, Loires e Borgonhas. Fotografei a pequena seleção australiana — muito em breve, meu próximo destino. O lugar era o L’Accolade, restaurante criado por um grupo de amigos franceses. Por meia hora, fui feliz com aquela carta de páginas frágeis.

Do balcão, enquanto bebia meu Cabernet Franc e via a vida passar na cidade que contém o mundo inteiro, resolvi escrever para me lembrar daquilo que insisto em esquecer: o melhor da vida acontece nas lacunas dos planos. Quando você permite que ela fermente espontaneamente, sem pressa. Sem certo ou errado. Sem checklist. Sem pré-reserva. Sem as máscaras e as influências do mundo hiperconectado.

![laccolade.jpeg](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/laccolade_6847426168/laccolade_6847426168.jpeg)

Talvez seja exatamente isso que me atraia no vinho natural. Adoro o conceito de possibilidades infinitas, quando você permite que as uvas encontrem a própria expressão. Não é sobre ausência de controle — porque nenhum bom vinho nasce do abandono —, mas sobre outra maneira de exercê-lo. Menos imposição, mais escuta.

O produtor observa, espera, acompanha e interfere quando necessário. A fermentação espontânea não promete perfeição. Apenas preserva a possibilidade de que alguma coisa irrepetível aconteça.

Prestes a completar 40 anos, fui lembrada de coisas que eu absolutamente já sabia. Nem tudo o que escapa ao plano dá errado.

Há tanta beleza no imprevisível.

Leia o artigo completo no Cave Winex Journal