O melhor vinho da feira é uma pergunta impossível
Por Juliano Salles · 28 de agosto de 2026
Depois de tantas taças, por que precisamos escolher um vencedor?
“Qual foi o melhor vinho?”
A pergunta aparece quase inevitavelmente depois de uma feira.
Alguém pergunta. Você pensa um pouco. Repassa mentalmente as garrafas, tenta lembrar os nomes, as regiões, as uvas, a ordem em que provou cada coisa.
Então responde.
“Foi aquele!” ou “Foram esses!”.
Pronto.
Temos um vencedor.
Problema resolvido.
Só que não.
Porque o que significa, exatamente, ser o melhor vinho?
O mais gostoso?
O mais complexo?
O mais surpreendente?
O que você compraria?
O que você beberia de novo?
O que custava menos?
O que custava mais?
O que ganhou mais pontos?
Já percebeu como uma pergunta aparentemente simples começa a ficar complicada quando tentamos respondê-la de verdade?
Passei o último fim de semana exatamente nesse ambiente.

Estive no Wine Fest, com a Barbagianni entre os expositores. Foram dois dias de vinhos, produtores, importadores, conversas, reencontros e muitas taças. Também foram dois dias ouvindo opiniões diferentes sobre as mesmas garrafas.
E foi justamente aí que a pergunta ficou ainda mais interessante.
Porque, dependendo de quem respondia, o “melhor vinho” mudava.
Às vezes, mudava até para a mesma pessoa.
E isso acontece porque vinho não é uma prova de matemática.
Não existe uma resposta escondida no fundo da garrafa esperando ser descoberta pelo provador mais atento.
Existe experiência.
Existe gosto.
Existe momento.
Existe companhia.
Existe expectativa.
Existe aquele vinho que, em uma determinada tarde, fez você parar de conversar por alguns segundos. E existe outro que, tecnicamente impecável, passou pela sua taça sem deixar aquele gostinho de “quero mais”.
Qual deles ganhou?
É difícil dizer.
Até porque a própria ideia de “ganhar” parece estranha quando estamos falando de vinho. Uma feira não é uma competição.
Embora, dependendo da quantidade de taças, alguém possa começar a agir como se fosse.
“Senhoras e senhores, chegamos à finalíssima. De um lado, o rótulo que surpreendeu. Do outro, o vinho que ninguém esperava gostar. A disputa está acirrada.”
Faltaria apenas alguém entrar com uma faixa.
A verdade é que nós gostamos de colocar as coisas em ordem.
Primeiro lugar.
Segundo lugar.
Terceiro.
Nota.
Medalha.
Pódio.
É uma maneira confortável de organizar o mundo.
O problema aparece quando levamos essa necessidade para experiências que não pedem classificação.
Uma degustação pode e tem a intenção em terminar em opinião.
**Uma feira não precisa terminar em pódio.**
Você pode sair lembrando de um vinho específico porque ele foi extraordinário.
Pode se lembrar de outro porque descobriu um produtor que não conhecia.
Pode levar para casa uma terceira garrafa por que era um grande custo-benefício.
E pode existir ainda aquele vinho que você nem sabe explicar direito por que ficou na memória.
Nenhum deles precisa derrotar os outros.
Eles simplesmente provocaram sensações diferentes.
Essa, com certeza, é uma das belezas do vinho.
A mesma garrafa pode ser extraordinária em uma noite e apenas boa em outra.
Pode funcionar perfeitamente com uma comida e desaparecer diante de outra.
Pode ser o vinho que você queria beber naquele momento e não fazer o menor sentido uma semana depois.
Não existe contradição nisso.
Existe contexto.
Por isso, quando alguém me pergunta qual foi o melhor vinho de uma feira, a pergunta que tenho vontade de devolver é:
**"Melhor em quê?"**
Pois, dependendo da resposta, o campeão muda.
E isso não diminui o vinho.
Pelo contrário.
É justamente o que torna tudo mais interessante.
Uma feira como o Wine Fest reúne dezenas de importadoras e produtores, com estilos e histórias diferentes. A curadoria do Léo Reis criou um terreno fértil para essas descobertas. Você entra com algumas expectativas e sai com outras.

Algumas cabem em uma garrafa.
Algumas ficam na memória.
Algumas viram conversa.
E penso ser aí que perdemos alguma coisa quando tentamos transformar tudo em ranking.
Ao procurar o melhor vinho, corremos o risco de deixar de perceber os vinhos que simplesmente **são bons para alguma coisa.**
Um foi perfeito para aquele bate-papo.
Outro para aquela comida.
Outro para aquela pessoa que estava ao seu lado.
Outro para o momento em que você precisava de um vinho fácil, gostoso e sem nenhuma pretensão de mudar sua vida.
Aliás, nem todo vinho precisa mudar sua vida.
Alguns podem simplesmente melhorar sua noite.
Já é um ótimo currículo.
No fim, uma feira de vinhos não precisa produzir um campeão.
Ela precisa produzir descobertas.
Produzir reencontros.
Produzir opiniões diferentes sobre a mesma garrafa — o que, convenhamos, costuma ser um excelente combustível para um bate-papo.
Pode até produzir uma lista.
Só não precisa ser uma lista de vencedores.
Porque, quando a feira termina, talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Qual foi o melhor vinho?”
Pode ser:
**“Qual deles você ainda está pensando?”**
Essa resposta, pelo menos, costuma dizer muito mais sobre o vinho.
E sobre quem o bebeu.