O peixe não sobe em árvores

Por Juliano Salles · 24 de julho de 2026

O peixe não sobe em árvores

Toda comparação começa como uma pergunta. Nem sempre termina assim.

Nem toda frase famosa merece sobreviver. Algumas sobrevivem porque continuam fazendo perguntas. Existe uma delas que atravessou décadas:

_"Se você julgar um peixe pela capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando que é estúpido."_

Ela costuma ser atribuída a Albert Einstein, embora não existam evidências de que ele realmente a tenha dito. Isso nem importa tanto.

Existe uma leitura bastante comum dessa frase: a de que comparar é um erro. E talvez ela nunca tenha dito isso. Entendo que ela esteja falando de outra coisa.

E não da comparação em si.

Mas da escolha do critério.

Do equívoco de esperar que um peixe suba em árvores.

Quando penso em vinho, é justamente aí que essa frase começa a fazer ainda mais sentido.

Comparar é importante.

Aliás, comparar talvez seja uma das formas mais naturais de aprender.

É comparando que percebemos diferenças.

Que descobrimos preferências.

Que entendemos melhor aquilo que nos emociona - e aquilo que não nos emociona tanto.

Quem bebe vinho inevitavelmente compara.

Um gole conversa com outro.

Uma experiência pode encontrar a anterior.

Uma garrafa desperta lembranças de outras garrafas.

É assim que construímos repertório. E isso é muito bonito.

O problema começa quando a comparação deixa de ser curiosidade e passa a ser expectativa.

Quando deixamos de perguntar "o que este vinho tem a me mostrar?" para perguntar "por que ele não é como aquele outro?"

Curiosamente, isso nem sempre acontece entre extremos.

Não é apenas um vinho simples sendo comparado a um grande ícone.

Às vezes acontece entre dois vinhos da mesma uva.

Da mesma região.

Da mesma faixa de preço.

Da mesma filosofia de produção.

É justamente aí que mora a armadilha.

Porque esperamos semelhanças. Mas encontramos individualidade.

Esperamos confirmação. Mas encontramos surpresa.

E, muitas vezes, rejeitamos essa surpresa porque ela não corresponde ao roteiro que escrevemos antes mesmo de servir a primeira taça.

No vinho, essa armadilha costuma aparecer de um jeito bastante particular.

Nenhuma garrafa recebeu o memorando dizendo que deveria parecer com a anterior.

Contudo, muitas vezes, é exatamente isso que esperamos.

Não queremos descobrir um vinho. Queremos reencontrar outro.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Porque, quando tentamos reviver uma emoção antiga, quase sempre deixamos escapar aquela que acabou de chegar.

Sendo assim, o vinho pode decepcionar antes mesmo de alcançar a taça.

Não por aquilo que é. Mas porque já havia outro ocupando aquele lugar na nossa memória.

No fim das contas, quem perde não é o vinho.

É quem bebe.

Porque deixa de enxergar o que está presente na taça para procurar aquilo que ficou preso na lembrança de outra garrafa.

Talvez a comparação deva funcionar como uma referência, nunca como uma sentença.

Como um ponto de partida, não como um destino obrigatório.

Ela existe para ampliar o olhar, não para estreitá-lo.

Afinal, uma das maiores riquezas do vinho está justamente na sua capacidade de surpreender.

E a surpresa raramente aparece quando já decidimos, antes do primeiro gole, o que deveríamos encontrar.

A memória é uma excelente companhia de mesa.

Só não deveria segurar a taça por nós.

Leia o artigo completo no Cave Winex Journal