O vinho tirou 94. Eu tirei quanto?

Por Juliano Salles · 25 de setembro de 2026

O vinho tirou 94. Eu tirei quanto?

Uma nota pode avaliar um vinho. A taça ainda é problema nosso

“Esse vinho é excelente.”

“Você gostou?”

“Não muito.”

Pronto.

Temos uma pequena contradição.

Porque, afinal, como um vinho pode ser excelente se eu não gostei dele?

A pergunta parece simples, mas talvez carregue uma das confusões mais malucas do mundo do vinho.

Estamos acostumados a ouvir que determinado vinho é excelente, que recebeu uma grande pontuação, que ganhou uma medalha, que foi muito bem avaliado por algum entendido do assunto. E, com certeza, essas referências têm seu valor.

Elas ajudam a organizar um universo em que existem garrafas demais, regiões demais, produtores demais e, para complicar um pouco mais, pessoas demais dizendo o que é bom e o que deveríamos experimentar.

**As classificações são uma espécie de mapa.**

**Só que mapa não é território.**

Penso nisso quando vejo o movimento de alguns grupos de WhatsApp sobre vinho, dos quais participo.

Há fotos de garrafas, recomendações, descobertas, perguntas, opiniões. Há de tudo um pouco.

E há, também, quem diga com bastante convicção o que é bom e o que é imprestável.

A palavra sempre me chama a atenção.

Porque “não gostei” e “é imprestável” parecem dizer quase a mesma coisa, mas não dizem.

“Não gostei” fala de uma experiência.

“É imprestável” é uma sentença.

E talvez valha perguntar: imprestável para quem?

Há pessoas que trabalham com vinho, que vivem disso, que estudam o assunto há anos. Gente com repertório, experiência e conhecimento que, com certeza, ajudam a enxergar coisas que talvez passassem despercebidas para quem está começando.

Eu posso aprender muito com alguém que conhece mais de vinho do que eu.

Posso ouvir uma recomendação, levar uma pontuação em consideração, descobrir um produtor por causa de uma avaliação.

Só não preciso transformar essa informação em uma decisão que continua sendo minha.

**Porque, no fim, uma classificação responde a uma pergunta.**

**O gosto pessoal responde a outra.**

E talvez o erro esteja justamente em esperar que as mesmas respostas caminhem juntas.

Uma avaliação pode tentar dizer quão bem um vinho foi elaborado, quão complexo ele é, se tem equilíbrio, precisão, persistência, tipicidade.

Meu gosto está interessado em outra coisa.

Eu quero beber isso?

Um vinho pode ser tecnicamente impecável, ter uma pontuação excelente e fazer todo sentido na lista de um crítico.

E ainda assim não ser o meu vinho.

Posso entender perfeitamente por que ele está sendo valorizado, reconhecer o trabalho por trás da garrafa e não sentir vontade de pedir uma segunda taça.

E existe o movimento contrário.

Aquele vinho que talvez não provoque grandes suspiros numa avaliação, mas que funciona perfeitamente quando estamos à mesa, conversando, comendo, bebendo sem a menor intenção de produzir uma nota sobre aquilo.

Quando percebemos, a garrafa acabou.

Nenhuma medalha precisou ser conquistada.

Nenhuma pontuação precisou ser confirmada.

Foi apenas a vontade de beber.

E, até onde eu sei, ainda não inventaram uma escala de 0 a 100 para isso.

Uma pena.

Ou talvez uma sorte.

Porque imagino a cena:

**“Quanto você quer beber esse vinho?”**

**“Olha, uns 94 pontos.”**

A classificação pode ajudar a chamar nossa atenção para uma garrafa.

Pode apresentar um produtor, despertar curiosidade, orientar uma escolha.

Mas não consegue beber por nós. A vontade de beber é outra coisa.

Podemos reconhecer qualidade sem gostar.

Podemos gostar sem precisar transformar nosso gosto em uma sentença sobre o vinho.

E podemos até mudar de ideia depois de uma segunda taça. Ou de uma terceira. O vinho tem dessas coisas.

No fim, talvez a classificação seja uma boa maneira de começar uma conversa sobre um vinho.

Depois disso, sobra uma pergunta bem mais simples:

**“Você quer mais?”**

**Essa, por enquanto, continua sem pontuação.**

Afinal, uma nota pode até ajudar a decidir qual vinho merece nossa atenção.

Só quem bebe sabe se ele merece a próxima taça.

E talvez seja melhor assim.

Leia o artigo completo no Cave Winex Journal