Quem escolhe o vinho que chega até nós?
Por Juliano Salles · 09 de outubro de 2026
Na ProWine, entre garrafas e decisões, enxergamos o caminho do vinho até nós
Existe uma parte do vinho que a gente quase nunca vê.
A garrafa chega à loja, aparece na carta de um restaurante, alguém recomenda, alguém compra, alguém abre. Parece que a história começa ali. Só que, antes disso, tem muita gente trabalhando para que aquela garrafa encontre seu caminho até nós.
Importadores procurando produtores. Distribuidores escolhendo portfólios. Restaurantes pensando no que colocar na carta. Lojas tentando antecipar o que seus clientes vão querer beber daqui a alguns meses.
É esse pedaço menos visível do mercado que esteve em evidência na ProWine São Paulo, realizada nos dias 6, 7 e 8 de outubro. Em sua maior edição, o evento ocupou pela primeira vez dois pavilhões do Expo Center Norte e reuniu mais de dois mil produtores de dezenas de países. É muita garrafa. E, principalmente, muita decisão sendo tomada ao mesmo tempo.
A Cave Winex também esteve por lá para dar uma espiada.
Por ser uma feira essencialmente profissional, a dinâmica é um pouco diferente daquela de outros eventos de vinho. A pergunta não é apenas se um rótulo agrada ao paladar. É preciso pensar se ele tem mercado, se existe espaço para ele no Brasil, quem poderia representá-lo, como compete com o que já está disponível e se o preço faz sentido. Até aquela uva que quase ninguém conhece precisa encontrar uma razão para deixar de ser desconhecida.
Em outras palavras, existe uma pergunta que paira sobre boa parte das taças:
**Quem vai comprar isso?**
Não é exatamente a pergunta mais romântica do mundo do vinho. Mas é uma pergunta bastante honesta.
Afinal, gostar de um vinho e encontrar espaço para ele no mercado são coisas diferentes. Uma garrafa pode ser excelente e não encontrar seu público. Outra pode despertar curiosidade justamente por oferecer algo que ainda falta nas prateleiras. Entre uma coisa e outra, há uma boa dose de trabalho, negociação e aposta.
É o que torna interessante observar os encontros que acontecem por ali. Um produtor de Champagne que ainda não tem representação no Brasil procura parceiros. Um produtor alemão apresenta seus Rieslings.
Regiões pouco conhecidas pelos consumidores brasileiros tentam conquistar espaço, enquanto importadores e outros profissionais avaliam o que pode fazer sentido para seus negócios.
É quase uma espécie de _speed dating_ do vinho.
Só que, em vez de descobrir se existe química entre duas pessoas, alguém precisa descobrir se existe química entre uma garrafa, um importador, um estabelecimento e o consumidor brasileiro. E nem sempre a química é imediata.
Também chama a atenção perceber como algumas tendências que parecem surgir espontaneamente no nosso consumo já estão sendo observadas, discutidas e, em alguns casos, negociadas antes de chegarem até nós.
Os vinhos brancos são um exemplo. A categoria vem crescendo no Brasil, enquanto os tintos registraram uma pequena estabilidade. Os espumantes também seguem avançando, e os vinhos de baixo teor alcoólico — pasmem, até os sem álcool — começam a ganhar espaço.
**Ou seja, enquanto a gente ainda está discutindo se o verão pede branco, alguém já está tentando descobrir qual branco vai estar na prateleira no próximo verão.**
A própria organização do evento resume bem esse movimento ao apontar que aquilo que aparece por lá pode chegar às gôndolas alguns meses depois. Em 2025, foram cerca de R$ 250 milhões em negócios realizados durante os três dias, com uma projeção de R$ 500 milhões nos meses seguintes.
Uma feira de vinhos pode ser um lugar para descobrir garrafas, produtores e regiões. Mas também pode funcionar como uma espécie de janela para o que ainda está por vir.

E isso ajuda a explicar uma sensação curiosa de caminhar por seus corredores: nem tudo ali parece destinado a você.
E isso é ótimo.
Há garrafas que talvez nunca cheguem às lojas que frequentamos. Produtores procurando representação, importadores em busca de novidades, empresas tentando encontrar distribuidores e países interessados em ampliar sua presença no Brasil. Destilados dividem espaço com vinhos, enquanto projetos menores tentam encontrar uma porta de entrada num mercado enorme e bastante competitivo.
Mais do que mostrar o que o mercado brasileiro já é, o evento permite enxergar algumas das possibilidades do que ele pode vir a ser.
Talvez essa seja a diferença entre olhar uma garrafa na prateleira e encontrá-la ainda em busca de um lugar no mundo. Na loja, vemos o resultado de uma série de escolhas. Nos corredores de uma feira profissional, conseguimos acompanhar parte do processo: alguém decide importar, outro decide distribuir, um restaurante aposta naquele produtor, uma loja resolve abrir espaço para aquela importadora com uma região ou variedade pouco explorada.
A garrafa ainda nem chegou à nossa mesa, mas já percorreu um bom caminho.
**No fim das contas, a ProWine é menos sobre descobrir o próximo vinho que vamos beber e mais sobre entender quem está tentando decidir isso por nós.**
E não há nada de errado nisso. O mercado precisa fazer suas escolhas para que tenhamos opções à nossa disposição.
Desde que, quando a garrafa finalmente chegar à nossa frente, a decisão volte a ser nossa.