Sem emoção, mas o Brasil já passou?
Por Fabio Sabini · 13 de agosto de 2026
O vinho brasileiro talvez já tenha ido da promessa à excelência.
Durante muito tempo, quando alguém falava em grandes vinhos da América do Sul, a conversa parecia ter dois endereços certos: Chile e Argentina.
O Brasil aparecia quase como um convidado secundário. O país dos espumantes. O país que ainda estava aprendendo. O país que precisava olhar para os vizinhos para entender como se fazia vinho.
Hoje, eu tenho uma provocação.
Talvez o Brasil já tenha passado.
Não em tudo. Não em todos os estilos. Não em todos os produtores. Mas, olhando para a qualidade média, para a diversidade, para a capacidade de inovação e para o potencial de seus terroirs, acredito que o vinho brasileiro provavelmente já ocupa o primeiro lugar entre os grandes produtores sul-americanos.
E digo isso por uma razão muito simples: eu ouço, eu pesquiso e, principalmente, eu bebo.
Bebo rótulos que me fazem voltar à taça e pensar que algo muito importante está acontecendo no Brasil. E não sou apenas eu que estou dizendo isso. As premiações internacionais estão aí. A opinião de quem bebe vinho está aí. O reconhecimento está crescendo.
Mas, para mim, a transformação vai muito além das medalhas.
O produtor brasileiro estudou. Investiu. Pesquisou. Trouxe tecnologia. Experimentou. Errou. Corrigiu. E, principalmente, começou a olhar menos para o que Chile e Argentina estavam fazendo.
Durante muito tempo, parecia que o caminho para produzir um grande vinho brasileiro era copiar os outros. Cabernet Sauvignon, Malbec, Chardonnay. As uvas que já tinham uma história consagrada fora pareciam carregar consigo uma espécie de certificado de qualidade.
Só que o Brasil começou a perceber uma coisa importante.
Nós não somos um Chile menor.
Não somos uma Argentina tropical.
Temos outros solos, outros climas, outras altitudes, outras dificuldades e outras possibilidades. E temos muitos terroirs.
A Serra Gaúcha, a Campanha, a Serra do Sudeste, os Campos de Cima da Serra, o Vale do São Francisco, a Mantiqueira e tantas outras regiões estão mostrando que o Brasil pode fazer muito mais do que simplesmente reproduzir modelos conhecidos.
Novas castas ganharam espaço. Novas regiões começaram a ser estudadas. A viticultura brasileira passou a ser uma investigação.
E talvez seja justamente aí que esteja nossa maior vantagem.
O Brasil ainda está descobrindo do que é capaz.
O capítulo dos espumantes é um dos mais importantes dessa história.
Existe uma razão para o espumante brasileiro, especialmente o gaúcho, ter conquistado tanto respeito. Acidez, frescor, equilíbrio e elegância não são mais promessas. São características que aparecem, de forma consistente, em grandes rótulos.
E isso não aconteceu por acaso.
A excelência nasce de estudo, repetição, tecnologia, tentativa e erro. Nasce de decisões pequenas tomadas corretamente durante anos.
A paixão continua sendo o combustível.
Mas hoje existe muito mais conhecimento no motor.
E talvez essa seja a grande virada do vinho brasileiro.
A excelência deixou de ser uma exceção.
O Brasil não precisa mais pedir licença para entrar na conversa.
A pergunta já não é mais se o Brasil consegue fazer grandes vinhos.
A pergunta é se Chile e Argentina ainda são, de fato, os melhores vinhos da América do Sul.
Eu tenho cada vez mais dúvidas.
E, sinceramente, cada vez menos vontade de procurar a resposta fora daqui.
Eu continuo estudando. Continuo provando. Continuo descobrindo.
Mas hoje, quando alguém me pergunta se o Brasil faz grandes vinhos, eu não preciso mais explicar.
Eu simplesmente abro uma garrafa.