Tenho mais vinhos que amigos

Por Juliano Salles · 04 de setembro de 2026

Tenho mais vinhos que amigos

O que uma adega cheia pode revelar sobre as pessoas que bebem dela

Tenho mais vinhos que amigos.

Não sei se isso diz mais sobre a minha adega ou sobre a minha vida social.

Prefiro pensar que diz sobre a minha capacidade de encontrar bons motivos para comprar vinho. É uma justificativa bastante conveniente.

Quem gosta de vinho conhece esse fenômeno. Você entra em uma loja procurando uma garrafa para o jantar e sai com três. Encontra um produtor que não conhecia, descobre uma região interessante, conversa com alguém sobre uma uva que nunca provou.

Quando percebe, a adega ganhou algumas novas habitantes.

Os amigos, por outro lado, continuam sendo os mesmos.

Alguns aparecem bastante. Outros precisam de convite, insistência, calendário compartilhado e, em certos casos, quase uma assembleia de condomínio.

O vinho é mais simples.

Você compra e ele vai para casa.

É por isso que a relação entre vinho e amizade seja tão curiosa.

Uma garrafa não precisa de ninguém para existir. Pode ficar perfeitamente quieta na adega, ocupando seu espaço, envelhecendo ou simplesmente esperando a abertura.

Só que o vinho parece ter uma vocação que nenhuma garrafa consegue cumprir sozinha: ele gosta de colocar pessoas na mesma mesa. Na mesma roda de brinde.

Não precisa ser uma grande ocasião.

Às vezes, basta alguém dizer: “Abre aquele vinho.”

A partir daí, a garrafa deixa de ser apenas uma garrafa.

Ela passa a fazer parte daquele cenário.

Alguém quer saber de onde veio. Outro conta que já tomou algo parecido. Alguém discorda. Alguém gosta mais do que todo mundo. Alguém não gosta de jeito nenhum.

E _voilá_: temos uma conversa.

É curioso como o vinho consegue fazer isso sem pedir licença.

É uma das razões pelas quais acumulamos tantas garrafas.

Não compramos apenas o que queremos beber. Compramos também aquilo que queremos mostrar, dividir, apresentar.

“Você precisa provar esse.”

Essa frase provavelmente já criou mais assuntos do que muita conversa ensaiada.

Também já criou algumas amizades.

Porque existe uma coisa no vinho que me interessa particularmente: ele é uma desculpa social muito eficiente. O vinho promove mais encontros do que muitos convites formais.

Você pode não saber exatamente o que dizer para alguém que acabou de conhecer.

Pode até não saber como começar uma conversa.

Pergunte sobre o vinho.

A conversa começa.

Depois ela pode ir para outro lugar completamente diferente. Viagens, comida, trabalho, música, alguma história absurda que aconteceu na semana.

No meio disso tudo, o vinho vai ficando no centro da mesa, participando sem precisar dominar a conversa. É uma das razões pelas quais uma adega conta histórias que não aparecem nos rótulos.

Ali estão garrafas compradas depois de uma conversa que ficou na memória. Vinhos associados a pessoas que passaram pela nossa vida. Rótulos que lembram lugares onde estivemos ou que representam uma descoberta que fizemos em determinado momento.

Algumas garrafas carregam pessoas dentro delas.

E isso é uma coisa que nenhuma ficha técnica consegue explicar.

Penso que é aí que a frase “tenho mais vinhos que amigos” começa a perder a graça da comparação.

Porque a questão nunca foi contar quantas garrafas eu tenho ou quantas já bebi.

É perceber quantas pessoas já passaram por elas.

O vinho pode aproximar desconhecidos, reencontrar velhos amigos, criar um papo onde não havia assunto.

Pode até servir de desculpa para aquela mensagem que estava há meses sendo adiada.

“Vamos abrir aquele vinho qualquer dia?”

O “qualquer dia” é perigoso, eu sei.

Ainda assim, funciona.

Porque algumas relações começam assim: alguém tinha uma garrafa e decidiu que seria melhor não beber sozinho.

No fim, esse é o verdadeiro problema de ter mais vinhos que amigos.

Não é a quantidade de garrafas.

É que algumas delas ainda estão esperando conhecer quem vai sentar à mesa.

E, pensando bem, isso pode ser uma ótima razão para continuar comprando.

Afinal, nunca se sabe qual vinho vai trazer o próximo amigo.

Só espero que ele goste de vinho.

Porque aí eu finalmente consigo justificar o tamanho da adega.

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