Uma festa, muitas taças e nenhum roteiro

Por Juliano Salles · 06 de novembro de 2026

Uma festa, muitas taças e nenhum roteiro

Entre doces, salgados e fila, o vinho encontrou mais de um jeito de participar

No último fim de semana, assim como no aniversário anterior, trabalhei com os vinhos da Barbagianni, na comemoração dos cinco anos do Garni, em Santos-SP.

Para quem ainda não conhece, o Garni é daqueles lugares lindamente difíceis de resumir em uma categoria. Uma portinha que tem confeitaria, tem cozinha, tem doces, salgados e uma boa dose de experimentação. O cardápio muda, as combinações surpreendem e existe um cuidado evidente em cada preparo.

É uma casa que leva a comida a sério, mas não parece fazer questão de transformar isso em formalidade.

E foi justamente no meio dessa mistura que uma coisa me chamou a atenção: o vinho.

No meio das fornadas, dos pedidos e da música, cada pessoa parecia ter encontrado uma maneira particular de incluí-lo na experiência.

Havia quem olhasse para o cardápio pensando na combinação. Um doce, um sanduba, uma preparação diferente. Qual vinho poderia acompanhar aquilo?

Para essas pessoas, a comida era o ponto de partida. A taça entrava na conversa para descobrir novos encontros de sabores, experimentar possibilidades e, quem sabe, encontrar uma combinação idealmente inesperada.

Afinal, quem disse que esse exercício precisa acontecer apenas durante o jantar?

**Às vezes, a harmonização começa antes mesmo do pedido.**

Um pouco mais adiante, o cenário era outro.

Gente na calçada, taça na mão, música tocando, conversa acontecendo. A comida ainda estava sendo preparada ou nem tinha sido pedida. O vinho já estava ali, sem pressa e sem precisar disputar a atenção com nada.

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Era simplesmente parte daquele momento.

**Nem toda taça precisa esperar o prato chegar.**

E havia ainda os mais apressados — ou os mais bem resolvidos com o próprio tempo. Alguns começavam a beber na fila, antes mesmo de fazer o pedido.

Sim, na fila.

A espera pela comida ganhou outro ritmo.

**Convenhamos, nem toda fila precisa ser encarada de mãos vazias.**

Três situações diferentes, no mesmo endereço, durante o mesmo evento. Em uma, o vinho acompanhava a comida; em outra, fazia companhia à conversa; na terceira, antecipava o prazer do que ainda estava por vir.

Fiquei pensando em como nossos hábitos acabam criando algumas expectativas sobre o vinho.

Imaginamos certas ocasiões, certos ambientes e até uma sequência de acontecimentos: primeiro escolhemos o que comer, depois pensamos na bebida, então chega o prato e começa a experiência.

Tudo muito organizado.

**Só que nem sempre a vida acontece nessa ordem — e ainda bem.**

No Garni, essa liberdade parecia combinar com a própria proposta da casa. Uma confeitaria que também prepara pratos salgados, experimenta ingredientes e sabores, muda seu cardápio e convida as pessoas a comerem de um jeito menos cerimonioso.

Uma casa que completa cinco anos de muito trabalho e pura inspiração gastronômica.

Ali, não era preciso escolher entre um doce, um salgado, uma taça ou uma conversa na calçada. Cada um montava sua própria experiência, sem muita preocupação em seguir um roteiro.

Talvez seja esse o ponto.

O vinho não precisa estar sempre associado a uma ocasião especial – mesmo sendo esses 5 anos demais de especiais.

Nem precisa esperar que todas as condições estejam reunidas para aparecer. Pode acompanhar uma combinação pensada com cuidado, mas também pode estar presente enquanto esperamos um pedido, ouvimos uma música ou encontramos alguém pelo caminho.

Isso não significa que qualquer vinho combine com qualquer comida, ou que todos os lugares precisem oferecer uma carta super selecionada de vinhos.

**Significa apenas que podemos ser um pouco menos rígidos sobre onde e quando abrir uma garrafa.**

Depois daquele fim de semana, fiquei com uma pergunta: será que existem lugares pouco convencionais para beber vinho ou será que convencionamos demais onde ele deveria estar?

Talvez o vinho não estivesse fora de lugar.

Talvez ele só estivesse mostrando que há mais lugares possíveis do que imaginávamos.

Ahhh... um viva e um brinde aos 5 anos do Garni!

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