Uma garrafa, uma árvore e algumas horas sem pressa
Por Tati Feldens · 22 de junho de 2026
Nem todo brinde precisa de companhia para fazer sentido.
Durante muito tempo, associei o vinho ao encontro. Amigos ao redor da mesa, conversas de família que atravessam a noite, festas, brindes e momentos compartilhados.
Eu continuo acreditando que o vinho tem essa vocação natural de unir e aproximar pessoas. Mas, de vez em quando, ele também pode ser companhia.
Dia desses levei uma garrafa de Clarete da Família Boroto para o Parque da Redenção. Não havia convite, programação ou alguém esperando do outro lado. Apenas duas cangas estendidas na grama, três revistas que eu havia comprado ao longo da semana em uma tabacaria perto de casa e algumas horas livres para aproveitar um feriado ensolarado em Porto Alegre com o meu cachorro, Brut - isso mesmo, de espumante Brut, nada de Moscatel.
Escolhi um lugar sob a sombra de uma árvore com vista para o Monumento ao Expedicionário, e, depois de alguns mates, abri a garrafa e servi a primeira taça.
Nos primeiros minutos, senti uma sensação estranha e curiosa. Estamos tão acostumados a transformar qualquer espaço vazio da agenda em compromisso que simplesmente se sentar na grama sem um objetivo definido parece quase um ato de rebeldia. Não havia nada para produzir, responder ou organizar. Apenas estar ali.
Fiquei observando pessoas caminhando pelo parque, crianças fazendo contorcionismo em barras, cachorros conduzindo seus donos de um lado para outro. Li algumas páginas das revistas, mas frequentemente minha atenção era desviada para as pequenas cenas que aconteciam ao redor. Uma roda de chimarrão com três meninas falando ligeiramente alto ao meu lado direito, casais deitados pelo gramado logo atrás de mim, gente aproveitando o sol sem muita pressa de estar em outro lugar.
Entre uma leitura e outra, e alguns amassos no Brut, servi uma segunda taça. Ela não era de vidro, muito menos de cristal. Era um simples copo com haste, presente de Natal de uma amiga querida, escolhido mais pela praticidade do que pelo protocolo. O foco não era avaliar a coloração ou identificar aromas. Era apenas beber aquele vinho sem pressa, numa tarde ensolarada, enquanto o tempo parecia caminhar em outro compasso.
Alguns pedaços de queijo Doble Chapa, de Santana do Livramento, que havia comprado na última feira da Casa de Cultura Mario Quintana, e figos frescos produzidos pela família Belle completavam o meu improvisado piquenique. Nada elaborado. Apenas coisas de que gosto e que pareciam combinar perfeitamente com aquelas horas.

Passei longos minutos olhando para absolutamente nada em especial. O Brut observava o movimento do parque com uma atenção muito maior do que a minha, enquanto eu alternava entre as revistas, a taça e as pessoas que cruzavam o gramado e vinham fazer um afago nele.
Não aconteceu nada extraordinário naquelas horas de ócio. Meu verdadeiro luxo não estava na garrafa de vinho, no queijo ou nos figos. Estava na sombra daquela árvore, algumas horas livres, uma boa leitura, meu cachorro do lado e nenhuma obrigação além de acompanhar o movimento da cidade desacelerando ao redor.