Uma Tarde de Vindima em Taquara

Por Tati Feldens · 27 de maio de 2026

Uma Tarde de Vindima em Taquara

700 quilos de uva, a desengaçadeira em ritmo constante e o vinho como celebração

Era início da tarde quando começamos. A pequena vinícola de autor Vinhos da Rua do Urtigão, da família Kunz, em Taquara, recebia 700 quilos de Nebbiolo vindos de Encruzilhada do Sul, na Serra do Sudeste gaúcha. As caixas estavam empilhadas no galpão, carregadas de cachos compactos e bagas firmes. Era dia de transformar fruta em vinho.

Entre os presentes havia entusiastas do vinho, alguns já conhecidos, outros que se encontravam pela primeira vez. Todos chegaram para participar da vinificação e acompanhar de perto uma das etapas mais importantes da elaboração de um rótulo.

A operação começou sob a coordenação do médico cardiologista e vinhateiro Rubem Kunz. Assim que a desengaçadeira foi ligada, a tarde ganhou ritmo. O som constante da máquina passou a conduzir os trabalhos dentro da vinícola.

Enquanto alguns alimentavam o equipamento com as caixas de uva, outros acompanhavam a mangueira que transportava o mosto até o tanque de fermentação. Havia quem monitorasse a separação das bagas, quem organizasse as caixas já processadas e quem registrasse tudo em fotos e vídeos (eu, no caso).

![vozesdacave-post1.png](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/vozesdacave_post1_90485c4da1/vozesdacave_post1_90485c4da1.png)

O trabalho seguiu de forma coordenada, mas sem pressa. Entre uma tarefa e outra, surgiam conversas sobre safras, técnicas de vinificação e as características da Nebbiolo cultivada em solo gaúcho.

Se no início setecentos quilos de uva pareciam muito, sob a condução organizada de Rubem Kunz e de sua filha, Tatiana Cristina, o processo aconteceu com naturalidade.

Para este lote, a escolha foi uma maceração semi-carbônica. Parte dos cachos foi colocada inteira no tanque, enquanto o restante passou pelo processo de desengace, buscando equilíbrio entre frescor, estrutura e extração.

Ao final da tarde, o tanque estava cheio e pronto para iniciar a fermentação. Hora de higienizar os equipamentos, limpar o chão e deixar as caixas organizadas (não pense que você irá escapar deste processo, todo mundo pega junto!).

A pequena vinícola mais parceria uma sala de cirurgia ao final do processo: limpa, arrumada e pronta para a próxima missão. Nós compartilhamos o sentimento de ter participado diretamente do nascimento daquele vinho.

Enquanto a vinificação acontecia no galpão, a poucos metros dali, Valéria Kunz, matriarca, preparava o almoço tardio na casa da família. O aroma da galinhada, acompanhada de saladas frescas, começou a disputar espaço com o perfume do mosto recém-processado.

Quando o trabalho terminou, nos reunimos todos ao redor da mesa. Nove rótulos da vinícola foram abertos e assim percorremos diferentes momentos da trajetória do pequeno produtor — das primeiras experiências aos vinhos mais recentes.

![jantar-vindima-taquara.png](https://storage.googleapis.com/winex-journal-uploads/jantar_vindima_taquara_6e267f24ae/jantar_vindima_taquara_6e267f24ae.png)

Degustar aqueles rótulos a poucos metros de onde um novo vinho iniciava sua fermentação trouxe uma dimensão diferente à experiência. Cada garrafa carregava histórias, decisões e aprendizados acumulados ao longo dos anos. Aqui até mesmo o clichê pede passagem: cada garrafa é única.

Talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante de encontros como esse: o vinho deixa de ser apenas um produto final e passa a ser entendido como processo. Um processo que envolve trabalho, convivência, conhecimento e colaboração. Um processo humano, de pequena escala, pouco replicável.

Naquele fim de tarde em Taquara, entre as caixas de Nebbiolo, as conversas e as taças compartilhadas, ficou evidente que o vinho também é uma forma de reunir pessoas em torno de uma experiência comum. E talvez seja justamente aí que reside uma parte importante de seu significado.

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