Você não precisa sentir aroma de cassis
Por Carol Felipini · 29 de setembro de 2026
O que vinho, memória e aulas de cerâmica têm a ver com o seu nariz
Tem eventos na nossa vida que transformam a gente como pessoa, né?
Na primeira degustação de vinho a que eu fui – uma garota sentada sozinha, com vários casais de meia idade à minha volta –, me sentia perdida, meio como um patinho feio, só que vestida toda arrumadinha com camisa branca e saltinho. Estávamos degustando um malbec que, sinceramente, eu só sentia o álcool batendo no meu nariz quando, lá do fundo da sala, uma mulher fala: “Senti aroma de argila”.
Todos sorriram e concordaram. Olhei para ver quem tinha falado aquilo, se era uma mulher normal ou uma espécie de E.T. Argila? No vinho? Como assim? Todos sentiram? E por que raios eu não senti? É o meu nariz que está quebrado ou são minhas papilas gustativas? Talvez meu cérebro, mas tudo bem, eu não sou bem certa, mesmo. De qualquer forma, foi depois dessa frase que eu comecei a estudar sobre os aromas do vinho. E foi isso o que eu descobri.
Sabe cassis? Aquela fruta que faz aquele licor que a gente mistura com sorvete e mamão para fazer o famoso creme de papaia com cassis? Tem gente que fala que é sobremesa de gente velha. Sendo assim, a senhorinha dentro de mim ama essa sobremesa, principalmente porque, se você colocar bastante licor, dá até um barato. Mas, OK, voltando para o tema.
O cassis (_Ribes nigrum_) é uma frutinha típica de regiões de clima temperado e, para se desenvolver bem, precisa passar por um período de frio durante o inverno. É por isso que ele é muito mais comum em partes da Europa e de outras regiões de clima frio do que por aqui. No Brasil, até existe cultivo, especialmente em algumas regiões mais frias do Sul, mas ele está longe de ser uma fruta que você encontra normalmente nas feirinhas de quarta-feira.
Então imagina você, brasileira, sentada para uma degustação, ouvindo alguém dizer que o vinho tem aroma de cassis. Você nunca nem cheirou um cassis na vida. O que exatamente esperam que o seu cérebro faça com essa informação? Invente? Você só vai viajar na maionese, mesmo. Experiência própria. E foi aí que comecei a perceber que o problema não estava exatamente no meu nariz, mas sim no meu repertório.
Quando você começa a estudar vinho, percebe que algumas referências podem ser um pouco distantes da nossa realidade. Isso acontece porque boa parte das grandes escolas e certificações profissionais de vinho tem origem internacional e trabalha com vocabulários padronizados de degustação. A WSET [_N.E.: sigla de Wine & Spirit Education Trust, uma das instituições mais reconhecidas mundialmente na formação e certificação profissional em vinhos e bebidas alcoólicas_], por exemplo, usa um sistema próprio para organizar os aromas e sabores do vinho, com categorias que vão de frutas cítricas e tropicais a frutas vermelhas e negras.
Inclusive, aqui no Brasil já existem iniciativas que buscam desenvolver rodas de aromas mais próximas das referências sensoriais de determinadas regiões. Em uma aula sobre marketing sensorial, a sommelière Jéssica Marinzheck contou sobre uma roda de aromas amazônica, criada pelas sommelières Tatiany Falcão e Nígima Amorim Melo, que, entre outras adaptações, substitui referências como o “mirtilo” pelo “açaí”, aproximando a linguagem da realidade sensorial dos consumidores locais.
Uma linguagem “padrão” é importante para quem trabalha profissionalmente com vinho. O problema aparece quando a gente transforma essa linguagem em uma espécie de prova de conhecimento: se eu não encontro o cassis, o mirtilo ou qualquer outra coisa que nunca cheirei na vida, começo a achar que minha degustação é uma vergonha, uma piada, “oh, meu Deus!”. Mas faço minhas as palavras da Jéssica Marinzheck: sensorialidade também é cultural. O “aroma” certo muda conforme o repertório cultural de quem degusta.
Hoje vejo que há muita tensão entre quem está começando a degustar vinho porque acha que precisa identificar um aroma ou um sabor específico. Vejo as pessoas levando a taça ao nariz, olhando pra mim e travando, do tipo “se eu falar que senti carambola ela vai rir da minha cara? ou não senti cheiro de nada, será que saio correndo?” Mas acho que é mais interessante pensar que degustar vinho é, também, construir a sua própria biblioteca olfativa treinando o seu nariz.
Uma pessoa pode sentir cheiro de “terra molhada” imediatamente porque cresceu em uma casa com jardim. Outra pode sentir “café torrado” porque a avó fazia café todas as manhãs. Outra pode reconhecer determinada erva porque cozinha com ela quase todo dia. Outra pode achar “estábulo” completamente absurdo porque nunca chegou perto de um cavalo. No fim, percebi que eu só me assustei naquela primeira degustação porque nunca fiz aulas de cerâmica.